Epifanias de uma metrópole

Embora eu já tivesse ido aos Estados Unidos, ironicamente nunca tinha ido à Nova Iorque. Cesar, desde que nos casamos, tinha vontade de me levar lá. Ele dizia que aquela seria a melhor cidade que eu visitaria, porque a vida cultural de lá é muito intensa, e eu sou alucinada com museus.
Decidimos que faríamos nossa viagem esse ano no início da primavera norte-americana. Cesar estava certo, amei Nova Iorque. Fiquei perdida naquele mar de museus e teatros para serem visitados. A cidade em si é meio acinzentada, amarronzada. Ela tem uma multidão de gente que vai pra lá e pra cá, falando várias línguas, com pressa de tudo, tomando café da manhã enquanto marcha para os metrôs… Não sei se morar lá seria tranqüilo, o ritmo de vida é corrido demais e os invernos muito longos. No entanto, para quem a visita, especialmente nesta época do ano, Nova Iorque tem o seu charme, e porque não dizer, o seu toque de romantismo. Ele não é obvio, mas está escondido em todos os lugares dessa metrópole, e nos aparece bem diante dos olhos como epifanias de uma cidade grande.
Um bom exemplo disso são as tulipas de Park Avenue. Ahhh até parei para suspirar agora: tão lindas, tão floridas, tão cheirosas, e bem ali, no centro da cidade… As pessoas passam por elas, naquele corre-corre, e muitas vezes nem percebem o lirismo daquilo. Naquela selva de arranha-céus de repente um pouco de cor, um pouco de amor, menos dureza, menos trabalho…
Não sei se todos sabem, mas Nova Iorque não é uma cidade para se andar de carro, ou de ônibus: ali a gente precisa mesmo é andar a pé. É que Nova Iorque tem tanto a ser visto, que se não andamos a pé, acabamos perdendo os pequenos detalhes. Vejam só, por exemplo, Time Square. Quem já esteve lá pode até me questionar agora se perguntando o que é que a Nicole viu de romântico ali. Essa é a região que mais brilha em Nova Iorque. De noite ali, a conta de luz deve ser absurda, porque tudo está aceso, tudo brilha… No entanto, foi um dia de manhã que Cesar e eu tivemos uma experiência romântica ali.
O café da manhã não é servido no hotel, então saíamos para comer na rua antes de irmos para as nossas gandaias diárias. Todos os dias nós experimentávamos um lugar novo, para não enjoarmos… Então fomos andando rumo Time Square, e eis que em uma das ruazinhas que cortam a avenida, vimos uma portinha onde vendiam bagels. Ficamos ali, parados na porta, até que um sujeito, saindo lá de dentro, olhou para a cara da gente e disse: “hey! Very good bagels here!”, e foi-se embora. Então nós entramos e compramos dois bagels temperados na chapa com cream cheese mais uma garrafa de suco de maçã para dividirmos. Não tinham mesas e cadeiras ali, então pegamos nosso pacotinho e fomos andando em busca de algum lugar para fazermos finalmente nosso desjejum.
Chegamos assim em Time Square e acabamos encontrando as mesinhas que ficam em frente ao stand de vendas de ingressos da Broadway. Podem rir, mas não teve nada mais romântico naquele momento do que nós dois ali, sentados, juntinhos, olhando a vida passar por Time Square, tomando sem pressa o nosso suco de maçã, e comendo nossos, realmente, deliciosos bagels. Devemos ter ficado ali nos divertindo por uns 30 minutos, ouvindo as conversas que a gente pescava dos outros, rindo dos turistas tirando retrato ao lado dos policiais… É… Lembrando aqui, foi realmente gostoso namorar ali…
As distancias que a gente não corta a pé, a gente pede arrego para o metrô. Arrebentei meus pés de tanto andar naquela cidade. Mas a gente não podia deixar de ir à downtown, afinal de contas, queríamos ver as ruínas das torres gêmeas, o famoso touro, a stock Exchange, a prefeitura, e também a Estátua da Liberdade. Já estava de tardinha quando chegamos em downtown. Só que os dias estavam durando mais tempo por lá.
O jeito mais gostoso que tem de ver a Estátua da Liberdade é o passeio gratuito no Staten Island Ferry. Tem gente que vai dizer o contrário, que a gente tem que pagar pra ir lá, mas eu não trocaria esse passeio gratuito por nenhum outro pago! O Ferry é enorme, e a gente sempre consegue achar um lugarzinho com uma vista boa para vermos a paisagem. Na ida e na volta nós subimos até o último andar do Ferry, para termos uma vista mais privilegiada. Aquele ventinho batendo no rosto, o cheirinho de água salgada… Uma delícia a sensação que dá na hora que o barco começa a andar. Ficamos os dois ali, debruçados nas grades de proteção do Ferry embevecidos com aquela paisagem linda, vendo Manhattan pouco a pouco sumindo.
Na volta, tivemos uma vista ótima da Estátua da Liberdade. Fomos bem à frente do último andar do ferry, bem num estilo Titanic. De lá tiramos várias fotos, da Estátua e da gente mesmo. Estava um frio danado, porque o vento quase cortava a pele da gente, e já eram quase sete da noite. Mas isso não foi problema. Pra falar a verdade foi solução: um excelente motivo para Cesar e eu terminarmos o nosso passeio de ferry abraçadinhos. Descemos do barco e seguimos adiante para irmos de volta ao metrô. Já estava ficando tarde, e meus pés pediam arrego. Mas antes de irmos embora, mais um pouco de romantismo: sentamos nos banquinhos que têm do lado de fora da estação do Ferry, e ficamos olhando pro céu, que pouco a pouco escurecia. Tem jeito de dizer que não foi romântico? Não tem…
Nova Iorque ainda nos reservou muitas outras histórias como essas. Mas agora, elas são cenas para o próximo capítulo!

About Nicole Delucca Linhares

Uma jornalista obcecada pelo lado bom da vida que está sempre em busca de experiências românticas para dividir com o mundo. Apaixonada por comidinhas, pores-do-sol, plantas, livros, cinema, viagens e teatro. É também professora de italiano, cozinheira para todas as horas, filosofa de boteco e, por fim, uma mistura doida de Minas, Itália e Piauí!

1 comment on “Epifanias de uma metrópole

  1. Nicole, seu texto ficou tão lindo, tão cheio de poesia e lirismo, que li e reli. Quanta doçura vc viveu ali. Acho, minha linda que são dessas coisas que fazem nossa vida valer a pena.
    Curta, curta muito esses momentos, porque passa tudo taõ rápido, e de repente são só boas lembranças.
    Beijo carinhoso
    Maria José

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