A Cafeteria

Essa semana meu cérebro me pregou uma peça: esqueci-me do dia 8 de julho! Esse foi o dia que eu e meu marido começamos formalmente a namorar, oito anos atrás. Talvez esse tenha sido também um esquecimento seletivo, uma vez que essa data feliz acabou sendo também um marco de medo em 2007, quando Cesar e eu fomos assaltados a mão armada na Lagoa da Pampulha. Enfim!

Ontem Cesar me lembrou que eu tinha me esquecido da data, e que eu nem havia reparado na champanhe e no clima de comemoração. Muito insensível de minha parte! (depois quando digo que tem horas que não sei onde mora o meu romantismo rsss) Mas, depois de conversarmos chegamos à conclusão de que talvez tenha sido melhor assim: é impressionante como que em determinadas pessoas, assim como eu, as más recordações têm a tendência de serem mais fortes do que as boas… Não ter me lembrado de nosso aniversário de namoro fez com que eu me esquecesse do dia do assalto. No entanto, agora estou aqui, em pleno domingo, dando espaço para boas recordações em minha cabeça.
Já há alguns dias que eu tenho pensado seriamente em falar sobre um lugar que para mim e para o Cesar é romântico por excelência aqui em BH: o Café Três Corações, ou A Cafeteria, que ficava na Praça da Savassi, bem na esquina com a av. Cristovão Colombo. Não estou me referindo àquela portinha que está aberta hoje lá na rua Antonio de Albuquerque. Refiro-me àquele lugar de aconchego, delicioso, com mesinhas na rua, que servia o melhor cappuccino shake da cidade!
Já era esperado que uma hora a especulação imobiliária e o empreendedorismo das operadoras de telefonia celular iriam transformar aquele cantinho em mais uma loja de telefonia celulare, já que as outras três esquinas de lá possuem lojas desta área: e viva a concorrência, uma coladinha na outra! Só que a tradição do café, mais a paixão que muitos belo-horizontinos detinham pelo local me faziam pensar que esse dia talvez nunca chegasse… Infelizmente ele chegou!
Lembro-me do dia que Cesar e eu começamos formalmente nosso namoro. Ele estava lá no café, de pé, de terno, lindo me esperando chegar com uma caixa de bombons da Copenhagen nas mãos. Eu era uma mocinha de 19 anos de idade, no auge da beleza, buscando novas experiências, começando minha carreira de jornalista, cheia de amor no coração e estranhamente apaixonada por aquele rapaz, meio nerd, tímido, que trabalhava na área de computação e que tinha acabado de se mudar para São Paulo por causa de um emprego.
O Café tinha um esquema de música ao vivo que acontecia do lado de fora. Era uma delícia aquilo porque sempre eram músicos de extrema qualidade tocando MPB, jazz, entre outros gêneros bons para os ouvidos e inspiradores para os corações.
Era de lei, a gente chegava lá e eu logo pedia o meu cappuccino shake duplo com chantily. Nem sei ainda se eles continuam fazendo esse cappuccino. Não tive ainda coração de ir lá! Mas para mim aquela bebida tinha gosto de amor. Temo que essa doce memória possa ficar ofuscada pela decepção de tomar o mesmo cappuccino hoje em um local tão diferente daquele das minhas recordações…
Minha relação romântica com A Cafeteria não começou somente com meu namoro com Cesar. O Café já era paixão antiga. Eu tinha o costume de ir lá sozinha e ficar olhando o tempo passar. Lá era o que nós, mineiros, tínhamos de mais próximo daqueles cafés deliciosos que existem na Europa, onde as pessoas sentam-se ao ar livre para ler jornais e olhar o tempo passar.
Eu sempre fui uma grande apaixonada por mim mesma, então eu sentia que eu tinha esse compromisso comigo: ir para um lugar deliciosamente inspirador para curtir os meus momentos comigo mesma e me perder em meus pensamentos e idéias, que invariavelmente mais tarde seriam cuidadosamente colocados em palavras nos textos que eu adorava escrever. O Café era perfeito para isso!
Uma recordação gastronômica deliciosa era o sanduíche de filé com molho de manjericão. Tinha também o clássico pão de queijo recheado com tomates secos e alface que era de comer de joelhos.
Cesar e eu íamos muito lá no decorrer de nosso namoro. Com ele morando em São Paulo, quase todos os finais de semana ele estava aqui em BH, e lá era sempre um de nossos destinos. Pensando aqui, passamos muitos momentos de curtição por lá. Quando queríamos ouvir a música, a gente se sentava mais perto de onde os músicos estavam, Quando queríamos mais privacidade, íamos para as mesinhas que ficavam na pracinha, com os toldos. Quando estava frio, ficávamos no lado de dentro… e de lei sempre bebíamos o cappuccino e com jeitinho fui também introduzindo a Cesar o vinho, porque na época ele não me acompanhava nas bebericagens como ele o faz hoje em dia… é… talvez os amigos dele estejam certos, talvez eu o tenha levado para o mau caminho mesmo porque hoje vejo que ele bebe até mais vinho do que eu!
Temos histórias engraçadas por lá, de bebedeiras minhas de vinho, de muitos amassos pela Savassi afora, de micos da minha irmã quando íamos para lá em programinhas de casais… já encontramos muitos amigos que não víamos há tempos por lá… já vimos gente famosa lá também… sinto saudades.
Sinto saudades do lugar, do clima, do cappuccino, do sanduíche, dos pães de queijo… sinto saudades dos meus 19 anos e da minha paixão pelas coisas naquela época. Sinto saudades do que o café representou na historia da minha vida… e é engraçado, até agora neste blog sempre falei de lugares românticos que estão ali, à disposição de todos que quiserem experimentar sensações de amor e aconchego, no entanto agora estou aqui falando de um local que não existe mais da forma como o estou pintando…
Restam-me lembranças e quem sabe a coragem de ir até lá bem acompanhada. Quem sabe Cesar e eu possamos criar uma nova história por lá? Bem, por melhor que ela seja, as saudades continuam, pois sabemos que não voltaremos mais àquelas cadeiras de frente para a Cristovão Colombo novamente… afinal, agora o café é só uma portinha na rua Antonio de Albuquerque…

2 comments on “A Cafeteria

  1. Querida, que delícia lembrar da cafeteria. Lá era mesmo maravilhoso. Da mesma forma que vc, eu costumava ir lá para pensar na vida e sonhar. Sempre gostei de sonhar acordada lá convidava a isso.
    E querida, tenho que discordar… vc naõ estava no auge da beleza aos 19. Está hoje, quando a menina se transformou em uma linda e bem resolvida mulher.
    Beijo carinhoso
    Mary

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