Footing dos tempos modernos…


A cidade grande, ao mesmo tempo em que possui inúmeras opções para os apaixonados, também limita os lugares românticos que podemos freqüentar com tranqüilidade. Não que eles não existam. O problema é que as desigualdades sociais, junto às falhas políticas de segurança pública, não permitem que estejamos tranqüilos ao trocar juras de amor em um coreto no meio de uma praça pública de madrugada. Tudo isso pode ser perigoso.
Lembro-me de minha avó contando do footing na Avenida Afonso Pena. Uma caminhada na qual as moças trajavam suas melhores roupas e os rapazes, bem aprumados, procuravam as mais belas moças pelas quais poderiam se apaixonar. Esses eram tempos de amor inocente. Não era perigoso andar pelas ruas, e muitas vezes elas eram os lugares mais românticos que uma cidade poderia ter.
Hoje nossos lugares românticos estão nos cinemas dos shoppings, nos restaurantes aconchegantes, nas pousadas que freqüentamos, mas e os espaços públicos? Temos lindas praças românticas em Belo Horizonte. A Praça da Liberdade, cheia de flores, a Praça do Papa e a sua vista maravilhosa da cidade no momento do pôr-do-sol… A Praça Raul Soares, que foi inclusive reformada recentemente… No entanto, esses locais não são tão mais seguros quanto o eram antigamente.
É engraçado eu ser saudosista de algo que nunca tive. Quando comecei minhas incursões em busca de lugares românticos eu já estava na geração shopping Center e cinema multiplex. No entanto, ultimamente devo confessar que tenho experimentado algo do tipo no meu bairro, o Buritis.
Todas as quintas-feiras existe um projeto organizado pela associação do bairro chamado Quinta na Praça. Trata-se de uma feirinha com barraquinhas de artesanato e comida que funciona às quintas-feiras pela noite na pracinha Aroldo Tenuta. A primeira vez que fui lá, segui o faro do acarajé. Quitute baiano que amo. Cesar não costuma me acompanhar nisso porque o quitute é uma bomba calórica à base de bolinho de feijão, frito no azeite de dendê, recheado com camarões fritos, vatapá, caruru, tomates verdes e pimenta.
Cesar e eu depois de irmos lá algumas vezes percebemos que aquele ali era o nosso namoro de mãos dadas à pé semanal. Geralmente às quintas-feiras pegamos a nossa cachorrinha e descemos a pé para a feirinha. Não quero afirmar veementemente que o Buritis está livre da criminalidade e que se pode andar calmos e tranqüilos de madrugada pelas ruas… Mas no caso do caminho para a feirinha, a rua é toda movimentada, cheia de crianças, adultos e outros cachorros, o comércio está aberto nas imediações, então nos sentimos mais tranqüilos…
Ao observar a tônica da feirinha, eu acabei percebendo que ali, naquele ambiente tão familiar, poderia haver espaço para o romantismo. A música ao vivo é de qualidade. Cesar e eu descemos para a feirinha de mãos dadas, conversando sobre o dia, namorando, segurando a cachorra… Eu compro o meu acarajé. Cesar, quando decide abusar, compra um pastel frito de queijo. Sentamos então na praça, nos degraus do anfiteatro para saborearmos as delícias e nos curtirmos enquanto contamos o que fizemos durante o dia. A caminhada de volta é tranqüila. Andamos de vagar, para que possamos aproveitar os mínimos detalhes do passeio. Ao chegarmos ao prédio, deixamos a cachorrinha correr livre pela garagem. Nós dois nos sentamos na bancada de ardósia do jardim e terminamos a noite assim, olhando nossa cachorrinha se divertir, e pensando o quanto somos privilegiados por podermos nos dar ao luxo de irmos à feirinha na esquina de casa, nas noites de quinta-feira…

1 comment on “Footing dos tempos modernos…

  1. Querida, nunca fui a essa feirinha, mas certamente deve ser uma delícia.

    Bom, não sou da idade de sua vó, mas vivi ja´um tempo diferente do seu. No Barreiro, onde morávamos, existia uma avenida cheia de barzinhos, e o forte lá era o domingo a noite, depois da missa. Toda a minha geração adolescente vivia isso com intensidade. A gente assistia a missa com a intenção de paquerar depois.
    Ficavamos em pé nas calçadas, consumindo nada, mas olhando. E nisso rolavam os flertes, e namoricos.
    Meus primeiros namoradinhos eram todos pós-missa.
    Peguei também os shoppings, enquanto ponto de encontro. Mas nessa época, a Praça da Liberdade tinha sido recém reformada, e era lá que eu e o Alan trocávamos juras de amor, após as idas ao Belas Artes Liberdade, que eu amava.

    Acho que a geração atual precisa resgatar isso. Porque acredite, é delicioso da gente se lembrar quando passa.
    Beijokas
    Mary

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