Buenos Aires a dois sem badalação: O Jardim Japonês

Esses dias um amigo me disse que vai a Buenos Aires com a namorada e quer conhecer Lugares Românticos sem muita badalação. Ele queria saber onde ele poderia curtir momentos gostosos com a namorada. Queria estar em contato com a natureza mas também queria um bocado de cultura.
Um conselho que sempre dou a quem viaja é: não tenha preguiça de andar. Não quero que as agências de turismo me matem aqui! Mas honestamente, não há nada pior nessa vida do que ficar dentro de um ônibus executivo enquanto um guia vai te mostrando lá fora os pontos turísticos da cidade. Para se curtir o lugar é preciso engrossar as pernas, andar com pouco peso, com um sapato confortável e uma câmera fotográfica nas mãos. Fazer um passeio assim ao lado de quem se ama, acreditem, não tem preço!

Andando em Buenos Aires

Então, expliquei a ele que andar em Buenos Aires não é assim tão complicado. Lá se anda de taxi, de ônibus, de metrô, de trem e a pé. Não tem mistério e os preços não são assim tão exorbitantes. Pra falar a verdade, se minha memória não está tão ruim assim, passagens de ônibus e metrô não passavam de R$2,00 e andar de táxi era a metade do preço do que estamos acostumados a pagar aqui no Brasil. Eu o aconselhei a comprar, aqui em BH mesmo, um bom guia que viesse com um mapa da cidade para que ele pudesse junto à namorada definir quais os lugares que eles querem visitar.

Gente, a viagem a dois começa no planejamento, essa fase é muito gostosa! É claro que chegando ao local de destino a gente acaba conversando com alguma pessoa da cidade e acaba indo conhecer lugares diferentes. Eu mesma caí por acaso no Museo de Armas de La Nación, em Buenos Aires, quando fui lá pela primeira vez. Algo totalmente não planejado com direito a bate papo com um sobrevivente da Guerra das Malvinas! Mas é sempre bom ter em mente aquilo que nos interessa e, principalmente, aquilo que não nos interessa fazer.

Pausa para contemplação: um oásis romântico na selva de pedras
Pois bem! Dito isso, pensando aqui em todos os Lugares Românticos que visitei em Buenos Aires e com o intuito de dar minha contribuição ao roteiro do meu amigo, acredito que um casal apaixonado não pode deixar de visitar o Jardim Japonês. Lá é definitivamente um lugar para se ir a dois. Sabe aquele momento em que a gente resolve que vai respirar, diminuir o ritmo e admirar a beleza da natureza? Pois é. Assim que a gente entra lá parece que aquela calma tipicamente oriental nos invade. Portanto, nada melhor do que um lugar desses para se fazer um passeio com quem se ama: quem não gosta de admirar um lugar bonito e namorar?
O jardim fica no coração do bairro Palermo. Ele foi construído em 1967, em homenagem ao então príncipe-herdeiro do Japão e atual imperador Akihito e a princesa Michiko, que visitaram o país naquele ano. Apesar de ser um espaço público, a entrada do Jardim é paga. Consultando aqui o site do local em busca de valores mais atualizados, vi que o ingresso custa $70 pesos argentinos, que no câmbio de hoje seria como R$18,20. Esse dinheiro é destinado à manutenção do local que é administrado pela Fundação Cultural Argentino-Japonesa. Quando vocês olharem ao redor verão que o dinheiro é extremamente bem empregado, portanto, paguem sem dó!
Essa fundação realiza um trabalho bem bacana em Buenos Aires na difusão da cultura japonesa. Eles promovem festas temáticas, performances teatrais, recitais de música, exposições de arte e cursos variados como origami, artes marciais, massagens, ikebana, bonsai e muitos outros temas ligados à cultura japonesa. Fora isso lá dentro tem uma casa de chá e restaurante que funcionam dentro de um Pagode típico e lindo! Dentro do complexo funciona ainda uma biblioteca de assuntos japoneses. Ouso dizer que se vocês forem de fato interessados em cultura japonesa, lá dentro tem atividade para um dia todo.
Hoje, o Jardim Japonês de Buenos Aires é o maior Jardim Japonês fora do Japão! O que me encanta neste lugar, e faz com que definitivamente eu o coloque no hall dos Lugares Românticos que eu Já Fui é a sensação de paz e equilíbrio que lá nos dá. Para cada lado que a gente olha, encontra harmonia. Acabei por curiosidade pesquisando um pouquinho sobre jardins japoneses na época que viajei pra lá para que eu tivesse condições de vivenciar de forma mais plena aquela experiência. Olhando de fora a gente acha o local bonito, decorado de forma metódica. A gente se encanta pelas pontes, pelos laguinhos cheios de carpas, pelas cerejeiras e azaleias. Mas quando a gente se aprofunda um pouco mais sobre o assunto, percebe que tudo o que está ali naquela estrutura tem uma razão de ser, e isso é o que é o mais lindo da história.

Equilíbrio, estética e religiosidade: Templos dedicados à natureza

Os Jardins Japoneses são sempre concebidos dentro de princípios como contemplação e harmonia. Isso porque eles têm forte ligação com a religiosidade do Japão. A natureza é um elemento extremamente importante tanto no Xintoísmo quanto no Budismo, que são crenças muito cultuadas por lá e que de forma muito interessante acabaram apresentando certo sincretismo entre elas. Tanto nas crenças Budistas quanto Xintoístas, a natureza é entendida como algo anterior ao homem. Portanto, interferências humanas no cenário natural são vistas com ressalvas. Para o Xintoísmo qualquer atividade que envolva uma utilização exagerada dos recursos naturais precisa ser recompensada com a construção de um templo dedicado à natureza. E é ai que entram os jardins.
No Japão, os jardins geralmente são concebidos em torno de uma estrutura arquitetônica que pode ser uma casa, um templo ou ainda um pavilhão de chá. No caso do Jardim Japonês de Buenos Aires ele está construído em torno do Pagode onde está o restaurante, a casa de chá e o centro cultural. Isso porque os japoneses tem essa ideia de que o jardim deve ser contemplado simplesmente abrindo, deslizando as portas da edificação. Isso é para que o interior flua livremente para o exterior. É uma questão de circulação de energias.
Dentre os elementos mais comuns e simbólicos que podemos encontrar num Jardim Japonês está, por exemplo, a água. Ela representa pureza, paz, serenidade. Aparece em forma de lagos, lagoas, pequenos riachos, quedas d’água ou ainda de forma simbólica, quando no lugar da água eles colocam um chão de areia grossa que é remexido com um ancinho. Para vocês terem uma ideia, até a direção do curso das águas tem significado: quando elas seguem do leste para o oeste, o dono do jardim quer que as energias negativas sejam neutralizadas. Quando elas seguem do norte para o sul o dono do jardim busca agregar boas energias e boa sorte.
As pedras também são muito comuns. Podem estar sozinhas ou em grupos. São um elemento bastante enraizado na crença Xintoísta porque eles acreditam que as divindades residem temporariamente em “xintais”, que são objetos de adoração, tais como árvores, rochas, montanhas e outros elementos da natureza. Outro objeto bem interessante que vamos encontrar em um Jardim Japonês são as pontes. Pontes de madeira ou de pedras para se atravessar as águas. Elas são entendidas como um caminho que representa evolução para um nível superior, amadurecimento, autoconhecimento. As árvores, assim como as pedras, também são parte muito importante no jardim e sua representação remete à ancestralidade.
Viram só como a coisa não é bela de graça? Existe toda uma teoria por trás de cada um daqueles elementos que são pensados de forma estética, mas também funcional e acima de tudo, espiritual. Independentemente da crença que temos, é fato que esses locais nos trazem calma e nos fazem entrar em uma sintonia diferente com a natureza. Para mim, lugares assim são perfeitos para se curtir a pessoa amada dentro desta ideia de fugir de badalação: um jardim japonês é, sem dúvida, o oposto de agito, sendo, portanto, aquilo que meu amigo está buscando em sua viagem.
Abaixo estão algumas informações práticas sobre o Jardim Japonês de Buenos Aires e seu funcionamento. Qualquer dúvida, eu estou ai à disposição!
Até a próxima!
Serviço:
 
Endereço: Av. Casares 2966, 1425 CABA, Buenos Aires, Argentina
Funcionamento: das 10h às 18h
Horário dos Restaurantes: todos os dias das 10h às 18h e de 19h às 00h. Eles estão fechados às terças-feiras pela noite.
Entrada: $70 pesos (no câmbio de hoje, algo em torno de R$18,20)  – menores de 12 anos não pagam apresentando documentação de identidade quando acompanhados por maiores. Argentinos maiores de 65 anos e aposentados tem entrada gratuita com a apresentação da documentação comprobatória.
Como chegar: Linhas de ônibus:15, 37, 59, 60, 67, 93, 95, 102, 108, 118, 128, 130, 141, 160 e 188. Linha de metro D:Estação Scalabrini Ortiz (caminhada de 8 quarteirões).

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