Um passeio na Igrejinha da Pampulha

Depois que a Pampulha virou Patrimônio da Humanidade muitos olhos se voltaram para lá. Comecei a observar no meu entorno e percebi que há pessoas no meu círculo de conhecidos, amigos e parentes que nunca sequer pisaram ali. Eu sempre fui dessas que faz turismo na própria cidade e três por dois faço alguns tours por Belo Horizonte. Dentre os pontos turísticos de BH, a Pampulha é sem dúvida um dos lugares que eu mais amo revisitar. Não há dúvidas: a Igrejinha da Pampulha faz parte do hall dos Lugares Românticos que eu já fui aqui em BH.

Lugares Românticos Igrejinha da Pampulha“Poesia não é coisa que fica, não./ Poesia é coisa que vem e passa./ Passa como um passarinho muito raro./ Passa depressa./ A gente vai querer segurar,/ Ele voa e vai-se embora./ Hoje, quando eu estava pintando o braço de São Francisco, ali perto da cabeça dele, eu senti um vlup – um raspão de poesia”.

(Cândido Portinari)

 

 

Um Passeio pela Pampulha

Lugares Românticos Pampulha

Fiz um revival numa sexta-feira de tarde. Estava quente o dia, e embora uma chuva estivesse já se anunciando ao longe, segui para a Pampulha. Estacionei o carro na Avenida Otacílio Negrão de Lima, atravessei a rua, e fui para a Igrejinha. Lá é indubitavelmente o meu lugar preferido dentre todas as obras do Complexo Arquitetônico projetado por Niemeyer, que é repleto de Lugares Românticos.

Aquele estava um dia bom para se fazer um passeio ali. Até então ele estava ensolarado e as árvores cheias de periquitos que faziam arruaça. Na beirada da lagoa, capivaras descansavam, esperando o sinal da natureza para se mandarem dali por causa do temporal que de longe se anunciava. As garças também marcavam presença: voavam com elegância de uma margem à outra. As flores cor-de-rosa das quaresmeiras caiam no chão com a ajuda dos periquitos. A natureza estava seguindo seu curso, e eu, que estava naquele momento com a cabeça acelerada, me vi obrigada a me curvar àquela paz e respirar.

A Igrejinha da Pampulha

Lugares Românticos Igrejinha de São Francisco

A igrejinha estava lá. Uma meia dúzia de turistas fazia fotos e selfies. Contornei-a e cheguei à sua lateral, por onde se entra. O ingresso para vê-la por dentro custa R$3,00 para jovens e adultos e R$2,00 para crianças, estudantes e idosos. Nada que cause um impacto estrondoso nos bolsos. Por que vale a pena conhecer a igrejinha por dentro? Ela é pequenina, tem capacidade para 200 pessoas sentadas. Mas em seu interior há uma riqueza artística inestimável.

É que para o belo-horizontino comum, acostumado a vê-la ali na lagoa todos os dias, pode parecer pouco. Entretanto, ali dentro temos não só a genialidade arquitetônica de Niemeyer, mas há também a excelência artística de Cândido Portinari e Alfredo Ceschiati. Podemos nos orgulhar por ter aqui em BH Lugares Românticos como este, cheios de charme e história. Eu, que estava ali para turistar, nem levei em consideração o sem número de vezes que já visitei aquele lugar. Sempre encontro algo novo para ver. Não pensei duas vezes e entrei.

Romantismo subversivo: entre o sagrado e o profano

A atmosfera dali sempre me remete um passeio a dois. Talvez eu seja mesmo uma eterna romântica, apesar de gostar de afirmar com veemência a tosquice que faz parte da minha personalidade. A igrejinha entra no meu hall de lugares românticos porque tanto ela quanto eu temos um quê de transgressão. É um lado subversivo que deseja ardorosamente ficar à margem das regras, ser pioneira, ditar a moda e quebrar padrões. Na época em que foi projetada, ela era a obra de Niemeyer mais aclamada. Foi a última edificação do Complexo da Lagoa da Pampulha a ficar pronto.

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Niemeyer durante a construção da igrejinha – Foto Arquivo Mineiro

Mas ai você me pergunta: mas Nicole, por que transgressor e subversivo? Pois bem: ao que tudo indica, as curvas da Igrejinha agradaram aos arquitetos, artistas e intelectuais da época. Mas a elite cultural conservadora de Belo Horizonte, junto à cúria da igreja católica, acharam inusual, quase ofensivo, que uma obra, digamos assim, sagrada, tivesse sido edificada daquela forma.

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Curvas

Ateísmo, comunismo, nudez e um vira-lata!

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Alto relevos de Ceschiati, o vira-latas de São Francisco e os santos disformes. Somente alguns dos problemas apontados pela igreja para a justificarem a sua não consagração.

Mas ai vocês me perguntam: que forma? Pois bem, dentre os lugares românticos sobre os quais já falei, a Igrejinha da Pampulha guarda na sua história um sem número de polêmicas. Preparados para a história? Para quem não sabe, Niemeyer além de ser comunista ainda era ateu, e Cândido Portinari também era comunista. Há quem diga que o formato da igrejinha tenha sido inspirado na foice e o martelo: a linha da abóbada com a linha da marquise fazem a “foice”, e a mesma marquise com o campanário o “martelo”.

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Além disso, os painéis de Portinari causaram um furor negativo, pois a igreja considerou ofensivo um vira-lata esquálido ser retratado ao lado de São Francisco no lugar do lobo, tradicional companheiro do Santo. E ainda, para completar a lista de ultrajes, o batistério com os alto relevos de Alfredo Ceschiatti causaram revolta por conta da nudez explícita e os santos “disformes”.

Aos olhos do então arcebispo Dom Antônio dos Santos Cabral, a igrejinha nada mais era do que um galpão que havia sido revestido internamente como um banheiro: era moderna demais, profana demais para ser uma igreja.

Esquecimento

A pena pelo ato transgressivo de ser uma das maiores vanguardas artísticas do Brasil, de ser um dos pontos mais altos das carreiras dos artistas que ajudaram a projetá-la e construí-la, e de transformá-la no cartão postal definitivo de BH; foram os 16 anos de quase abandono.

Em 1947 ela foi tombada pelo IPHAN na tentativa de preservá-la. A Igrejinha só foi consagrada para cultos religiosos em 1959, após muita insistência, em especial de Juscelino Kubitschek, que teve uma participação ativa neste sentido na época em que foi presidente do Brasil.

O Vira-lata estava lá?

Dizem que quando Dom José Resende Costa estava fazendo a elevação do Santíssimo durante a missa de consagração da igreja, um cachorro amarelado e perebento que ninguém sabia de onde tinha vindo, entrou cambaleante pela nave da igreja e se deitou em frente ao altar. Se é só história ou realidade não sei, mas hoje a igrejinha da Pampulha tem um carinho todo especial pelos animais e três por dois escuto notícias de que o padre de lá abençoa bichinhos de estimação. Parece que o cachorro vira-lata ao lado de São Francisco deu o seu recado, né?

As Curvas de Niemeyer

A Igrejinha é considerada a obra fundamental do conjunto arquitetônico da Pampulha porque foi em seu projeto que Niemeyer fez os experimentos em concreto armado que permitiram que ele abandonasse a laje sob pilotis e criasse uma abóboda parabólica toda em concreto. Essa era uma estrutura que só era utilizada em hangares. No projeto do arquiteto, essa abóboda seria ao mesmo tempo a estrutura e o fechamento, assim não teria a necessidade de nenhuma alvenaria.

Niemeyer mesmo já dizia: “Não é o angulo reto que me atrai./Nem a linha reta, dura, inflexível,/criada pelo homem./O que me atrai é a curva livre e/sensual. A curva que encontro nas/montanhas do meu país, no curso sinuoso /dos seus rios, nas nuvens do céu, no corpo/da mulher amada./De curvas é feito todo o Universo./O Universo curvo de Einstein”. Então, aquelas curvas, aquele movimento arredondado nas formas, ficaria em definitivo registrado como a sua assinatura arquitetônica.

Patrimônio Universal no hall dos Lugares Românticos que já fui

 

Lugares Românticos Pampulha

Na parte interna, a Via Crúcis é formada por catorze painéis feitos por Cândido Portinari e essa é uma das obras mais significativas do artista. Na parte de fora da Igrejinha estão os painéis com cenas da vida de São Francisco de Assis, esses também de Portinari, e ainda os painéis abstratos. Esses últimos foram feitos por Paulo Werneck. Burle Marx foi quem assinou os jardins ao redor da igreja e Alfredo Ceschiatti esculpiu os baixos-relevos em bronze que estão no batistério.

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Nada mal, não é verdade? Bem ali, na Pampulha, está um dos meus lugares românticos preferidos em BH e, por acaso, ele é uma das obras mais aclamadas de um dos maiores arquitetos brasileiros! Mais do que isso, a igrejinha traz também obras de arte de três grandes artistas nacionais mais o paisagismo de um dos maiores paisagistas que o Brasil já teve. É preciso valorizar. Para estar entre os lugares românticos que já fui, o lugar precisa conversar com a minha alma, e a região da Pampulha faz isso.

A síntese do romantismo

Lugares Românticos Pampulha

Saí da igrejinha. Eram mais ou menos 17h. Logo, logo o sol iria embora. Esse é o momento que mais gosto ali. Estava caminhando para me sentar na beirada da lagoa e ver o pôr-do-sol antes que os pingos de chuva começassem a cair sobre a minha cabeça, quando avistei um casal fazendo exatamente aquilo que considero quase obrigatório de se fazer ali: sentar-se à margem da lagoa e ficar abraçado vendo o cair do dia. É… mesmo com os primeiros pingos frios da chuva, senti meu coração acelerando e um arrepio de contentamento passando pelas minhas veias: borboletas na barriga… Pôr-do-sol na beirada da Lagoa da Pampulha de frente pra Igrejinha de São Francisco de Assis me deixa assim, com borboletas na barriga! Por isso ela faz parte do hall dos Lugares Românticos que Já Fui.

Até a Próxima!

Serviço

Endereço: Avenida Otacílio Negrão de Lima, 3000 – Pampulha

Telefone: 31 3427-1644

E-mail: igrejapampulha@ig.com.br

Horário de Funcionamento: 2ª sáb. das 8h às 17h, dom das12h às 17h, feriados das 8h às 17h

Informações Adicionais:

Missas: domingos as 10 h e terças-feiras às 20h.

Acessibilidade:

Possui rampa, porém não dentro das normas ABNT, mas é possível o acesso à Igreja.

Disponibiliza para manuseio livro em braile sobre a Igreja e os pontos turísticos da cidade.

Igrejinha da Pampulha, recentemente recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.

1 comment on “Um passeio na Igrejinha da Pampulha

  1. Um passeio bem legal que eu fiz com a minha namorada é um passeio de avião executivo por São Paulo, foi bem romântico e único! Valeu super a pena e não foi tão caro quanto eu pensei. Utilizei uma empresa chamada Brasilvida, brasilvida.com.br e eles foram incríveis do começo ao fim.

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