Receita Romântica: Tomates recheados à la Siciliana

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Gente! A vida anda louca nessas últimas semanas! O Lugares Românticos é uma das minhas atividades mais prazerosas e cuido dele com carinho. Mas, estou com muitos compromissos profissionais tomado meu tempo neste momento. É culpa da minha personalidade versátil, que tem formigas no traseiro, e está sempre inventando algum projeto para executar. Mesmo assim, não vou deixá-los a ver navios sem uma receita romântica deliciosa para abrilhantar a noite ou o dia de vocês!

Como toda receita romântica que trago para cá, essa é também muito simples. Não é para deixar ninguém cansado na cozinha. Pelo contrário: é para cozinhar junto bebendo um bom vinho ou mesmo uma cervejinha gelada! Vocês vão poder comê-la como uma entradinha, ou se quiserem fazer dela um prato principal, aumentem a quantidade e a acompanhem com uma saladinha verde, de repente um pãozinho! Vai ficar uma delícia!

Sabor siciliano

O tomate hoje é um dos maiores símbolos da culinária italiana, em especial a sulista.

Essa receitinha vem com um gostinho do sul da Itália. Ela tem requintes de simplicidade e sabor. Ah, claro não poderia me esquecer: como o Lugares Românticos também é cultura, ela traz uma pitadinha de história. Mais do que romântica, esta receita é considerada por muitos afrodisíaca. Culpa da história de seu ingrediente principal: repleta de aventuras e controvérsias.

Querem conhecer um pouquinho da história do tomate? Quem não estiver nesta vibe, pode pular para o subtítulo dos ingredientes: a receita romântica do dia está logo ali. Mas eu aconselho vocês a ficarem aqui comigo até o final! Vai ser uma viagem no tempo divertida!!

 A maçã do amor

Maçã do Amor

Então vamos começar a saga do ingrediente central da receita romântica de hoje! Isabel Allende em seu livro Afrodite nos conta que uma das alcunhas que os tomates receberam quando chegaram à Europa pelas mãos dos espanhóis, vindos das Américas, foi “Maçã do Amor”. Ela ainda lembra que a sua polpa vermelha, suculenta e sensual causou escândalo. Então vocês me perguntam: por qual razão? Se considerarmos que hoje o tomate é um dos legumes (ou será fruta?) mais consumidos do mundo. E se pensarmos também que sem ele a culinária mediterrânea, e a de boa parte do mundo, não seria a mesma, parecerá estranho a todos vocês acreditarem que ele demorou um bocado, algo em torno de dois séculos, para conseguir se estabelecer como comida confiável na Europa.

Fruta ou legume?

Fruta ou legume?

Antes de continuar, um esclarecimento acerca da polêmica que paira sobre o ingrediente chave da receita romântica de hoje: “fruta ou legume”? Teoricamente é fruta! Por definição, fruta é o ovário amadurecido de uma planta, onde ficam as sementes. Então, a partir daí, entendemos que muitos vegetais que chamamos de legumes também são frutas: berinjelas, pepinos, abobrinha, pimentões…

Mas a controvérsia foi mesmo discutida na terra do Tio Sam. É que em 1887 as leis tarifárias impuseram uma taxa sobre os legumes, mas não sobre as frutas. Isso fez a classificação do tomate tomar importância legal. A Suprema Corte encerrou esse assunto em 1893, declarando que o tomate é um legume. Fizeram isso baseados na definição popular que o classificava pelo uso, já que era consumido como um prato e não como sobremesa. Pra vocês verem que essa coisa de doer no bolso não é só por aqui em terras Brazucas!

Para encerrar essa questão, vamos colocar os tomates na categoria reconciliatória de “legumes-fruta”, agradamos a gregos e troianos!

Gato escaldado tem medo de água fria

Eu juro que parei neste ponto do texto para pensar em alguma expressão menos explícita. É que me pareceu deselegante falar de receita romântica e colocar no meio um nome feio. Mas confesso: Manuel du Bocage é a única imagem que me vem em mente quando penso no que aconteceu com os tomates no momento em que foram conhecidos pelos europeus. Explico-me: Sabem aquela expressão chula que diz “quem tem cu tem medo”? Ela é atribuída ao poeta português. E é o que melhor define a aversão inicial que os conquistadores tiveram pelos tomates quando os encontraram em terras distantes por volta do século XV.

Receita Romântica - A Fabulosa História dos Legumes

Lendo avidamente!

E já que estou aqui fazendo alusão a ditos populares, esse ai em cima, do subtítulo, complementa a frase atribuída a Bocage. A verdade, pessoal, é que, faço minhas as palavras de Évelyne Bloch-Dano, no livro A Fabulosa História dos Legumes: “heroicos, exaltados, às vezes sanguinários, de todo modo corajosos, esses aventureiros correram todos os riscos, exceto os riscos alimentares”.

Imaginem vocês: esses conquistadores saíram de casa e se depararam com mundos novos. Lugares muito diferentes daqueles que conheciam. Encontraram costumes estranhos, alimentos diferentes, exóticos. Após a primeira disenteria causada pelos efeitos de algum alimento desconhecido, é natural que os europeus tivessem ressalvas para conhecerem a fundo as novidades gastronômicas. Era uma questão de sobrevivência.

A mandioca

Évelyne Bloch-Dano lembra do caso da mandioca, que causou um estrago imenso nos espanhóis. Para quem não sabe, mandiocas possuem em sua composição uma substância tóxica chamada ácido cianídrico, que se não for removido antes do consumo, pode causar problemas. O conselho da vovó é claro: mandioca a gente precisa descascar e quando ela estiver bem limpinha e branquinha, é preciso cozinhar bastante.

E esse conselho vale para as espécies de mandioca que são conhecidas como mandiocas doces. As bravas precisam de mais processamento para serem comestíveis sem riscos. Pois é… provavelmente os espanhóis não escutaram (ou não conseguiram entender) os conselhos dos locais. Ou talvez também, os locais tenham se divertido em ver os espanhóis se contorcendo de dor de barriga. Vai saber?

Solanáceas – uma família suspeita 

Mas o fato de os conquistadores terem tido parcimônia na hora de experimentar novidades, não significa que eles não gostassem delas. O período das grandes navegações levou ao mundo muitas novidades gastronômicas que foram aceitas. Tudo aquilo que era encontrado, era levado à Europa. Lá, essas novas espécies eram descritas e classificadas pelos botânicos. E foi ai que residiu parte do problema do ingrediente da receita romântica de hoje. A família da qual os tomates fazem parte é considerada como, digamos assim, uma família pouco frequentável.

Quem ai sabe o nome de outras belezuras que fazem parte deste grupo suspeito? Bom, além do tomate, nesta família figuram também a Beladona, a Mandrágora, o Estramônio e outras plantas muito tóxicas. Tudo bem que neste clubinho estão também a batata, o fumo e a berinjela. A batata e o fumo foram “descobertas” feitas pelos europeus no novo mundo. Cada um deles teve a sua trajetória, mas nenhuma delas teve a mesma dificuldade que o tomate de ser considerado confiável.

A Batata também!

E olha que a batata também tem toxidade! Sabe quando elas ficam esverdeadas? Pois é: sinal de que a concentração de solanina e chaconina está alta. E essas duas substâncias em excesso, podem causar desordens gastrointestinais e nervosas. Dependendo da dose, podem até matar.

receita romântica - batata verde

Evite a batata quando ela estiver assim!

Já a berinjela chegou à Europa por volta do século XIII com os árabes, que eram profundos apreciadores do legume. Ela não teve tantas dificuldades assim de ser aceita.

Apesar de tudo, a berinjela não salvou a pátria

Mas, a berinjela não foi o bastante para convencer os Europeus da natureza inofensiva dos tomates. É que eles se pareciam muito com as bolinhas pretas da beladona. E como se não bastasse, eles se pareciam muito também com a mandrágora, que tinha baguinhas amarelas alaranjadas. Ambas especies muito mal vistas, já que são tóxicas e sempre estiveram presentes no repertório da bruxaria e ocultismo. Envenenamento sempre foi uma obsessão séria na história da humanidade, não é mesmo?

Diga-me com quem andas…

“Diga-me com quem andas e te direi quem és”, não é assim o ditado? Pois é! Por fazerem parte de uma família tão controversa, os tomates acabaram ganhando má fama. Nas Américas, eles estavam aculturados desde o México até o Chile. Então não é de se estranhar que eles fossem consumidos pelos locais. Mas imaginem só! Os conquistadores não acharam prudente levar em conta indiscriminadamente o que os povos indígenas ingeriam. Afinal de contas, no caso dos Astecas principalmente, eles comiam até gente! Vai saber que tipo de bruxaria era aquela!? Não foram poucos os relatos de aventureiros do velho mundo que quase viraram ensopadinho dentro de caldeirões cheios de cebolas, tomates e pimentões!

Receita Romântica - astecas

Rituais astecas de sacrifícios humanos seguidos de canibalismo

Fora isso, alguns “corajosos” decidiram evitar os frutos e resolveram experimentar as folhas do tomate. Ai vocês já viram, né? Na natureza nem tudo segue regras assim tão exatas, e especificamente no caso do tomate, a fruta em si não tem veneno, mas o caule e as folhas tem uma substância chamada glicoalcalóide. Quando ingerida em níveis elevados, ela pode causar problemas estomacais e nervosismo. Parece até piada, né? Mas com medo de se arriscarem muito, acabaram caindo de boca na parte que não deviam e passaram mal.

Receita Romântica tomates

Folhas de tomates

Tomatl, tomato, malum aureum, pomodoro, liebesapfel… o nosso tomate

Receita-romântica-tomates

Então foi assim: o tomate foi considerado por muito tempo uma iguaria que deveria ser evitada. Passou a povoar o imaginário das pessoas. Foi cultivado como planta exótica na Europa até o século XVII: apareceu timidamente em um livro de receitas napolitano somente em 1692.

Além de ser chamado de maçã do amor, ganhou também nomes como malum aureum, que seria algo como maçã dourada. Esse nome depois virou pommo d’oro, que dou origem ao seu nome em italiano Pomodoro. A nomenclatura em português veio do nome que ele ganhou ao chegar à Espanha. É que em náuatle, língua asteca, esse fruto era chamado de xi-tomatl. Ao chegar à Espanha ele foi batizado de tomato.

Virtudes afrodisíacas

As suas virtudes afrodisíacas foram exaltadas quando ele passou pela Occitânia (região do sul da França). Foi lá que ele virou o poumo d’amour. Segundo Évelyne Bloch-Dano, isso pode ter acontecido por causa de reminiscências mitológicas, como as maçãs do amor do Jardim de Hespérides, oferecidas como presente de núpcias por Gaia, deusa da Terra, a Hera. E olham só que coisa: em Alemão, língua considerada por muitos dura e pouco poética, o tomate é chamado de liebesapfel, maçã do amor.

Poções do amor, exotismo e Maquiavel

Eu acho essas histórias muito divertidas, mas creio também que no fundo, no fundo, essa coisa de considerar o protagonista desta receita romântica um ingrediente afrodisíaco vem de duas razões. A primeira é esse exotismo e exuberância que girava em torno de tudo aquilo que vinha do novo mundo. A segunda, é essa aura que algumas de suas irmãs solanáceas tem.

Quem ai já leu A Mandrágora, de Maquiavel? Pois é, o escritor italiano era um exímio estrategista e acabou fazendo uma bela brincadeira com a Mandrágora para ilustrar a arte de envolver, manipular, convencer e atingir um objetivo. Vocês se lembram da máxima Maquiavélica segundo a qual os fins justificam os meios?

A Mandrágora

Pois é. Sem muito spoiler, porque recomendo a leitura, a Mandrágora conta a história do jovem Calímaco. Por conta de uma aposta, ele conheceu e desejou ardorosamente uma mulher casada que não conseguia ter filhos com o marido. Ele recebeu a ajuda de um trambiqueiro, de um frei inescrupuloso e da mãe da moça casada em sua empreitada. Fingiu ser médico e receitou um tratamento à base de mandrágora para solucionar os problemas da moça. Mas a mandrágora, segundo a crença popular, é ingrediente precioso para poções do amor. Então já viram, né? Confusão instaurada!

Por fazer parte desta família, automaticamente os tomates entraram de gaiatos neste imaginário repleto de poções do amor e plantas potencialmente mortais e afrodisíacas. Isabel Allende lembra, em Afrodite, que depois de um tempo, acreditava-se tanto em seu poder estimulante, que pagavam-se fortunas por um tomate. “As mulheres virtuosas rejeitavam-no, ao contrário das outras, que podiam jogar a culpa dos seus pecadinhos no irresistível tomate”.

A sensual fruta-legume mais amada do mundo

Poderíamos ficar horas aqui divagando sobre todas as curiosidades que giram em torno do imaginário sensual-erótico e das viagens que o tomate fez ao redor do mundo. Ele acabou virando um dos maiores símbolos da culinária italiana, mediterrânea como um todo, e sem ele nem mesmo o fast-food seria o mesmo.

Receita-romântica-caprese

Caprese: as cores italianas em um prato simples, emblemático, delicioso e sensual!

É que ao desembarcar na terra do tio Sam, mais especificamente na Louisiana, ele acabou virando ketchup.

O ingrediente da receita romântica de hoje é tão pop, que devem existir espalhadas por ai mais de duas mil variedades dele entre as hibridas e as naturais.

O protagonista desta receita romântica viajou o mundo, foi mal compreendido, e hoje é muito amado!

No final das contas, se o tomate queria se sentir rei e ganhar reconhecimento no mundo, de fato valeu a pena esperar. Ele é um dos ingredientes mais versáteis que conheço!

Imaginário ligado à paixão e à fertilidade ainda hoje

Évelyne Bloch-Dano lembra que essa associação do tomate a esse imaginário sexual não foi coisa somente dos europeus. Ela explica que em algumas etnias como a dos Bambarras, em Mali, ele simboliza o sangue menstrual e que por isso está ligado à fertilidade. Ela conta que mulheres fazem oferendas de tomates à divindades e que os casais o comem antes de se unirem.

Ingrediente de receita romântica na mesa e na alma…

Neruda talvez seja um dos poetas mais fundamentais para a minha vida…

Existem ingredientes que servem tanto para a mesa quanto para a alma. Acredito ser esse o caso dos tomates. As referências eróticas ou apaixonadas a ele são muitas. O ingrediente central desta receita romântica foi lembrado por Marcel Proust em Sodoma e Gomorra (divertidíssimo!). Joseph Delteil em Choléra se refere a ele como “sistemas solares e ventres de mulheres, ventres de mulheres e os miolos da terra”. E claro, para finalizar este passeio deliciosos, eu não seria Nicole se não voltasse para as Américas, no Chile, com a poesia de meu poeta preferido, Pablo Neruda, que dedicou aos tomates uma ode, em seu livro Odes Essenciais.

Uma ode ao tomate

Ingrediente de receita romântica tem que ter poema dedicado a ele!

Ficaram inspirados com essa receita romântica? Agora chega de conversa, somente suspiros! Abram um bom vinho e mãos à obra.

Ingredientes

Esta receita é para duas pessoas! Não estranhem a falta de sal. As azeitonas e as anchovas costumam ser salgadinhas. Caso optem por retirar as anchovas, provem para verem se precisa colocar sal. Deixo isso a gosto.

  • 4 tomates médios, maduros mas firmes
  • Azeite extravirgem a gosto
  • 1 cebola média picadinha
  • 2 dentes de alho esmagados
  • 100g de pão ralado
  • 4 filezinhos de anchovas em óleo picadinhos (quem for do time vegetariano, desconsidere o ingrediente!)
  • 3 colheres de sopa de azeitonas pretas carnudas picadas
  • 2 colheres de sopa de salsa fresca
  • Uma pitadinha de pimenta calabresa
  • 1 colher de sobremesa de manjericão fresco picadinho.
  • Queijo parmesão ralado para gratinar

Preparo

  • Corte o topo dos tomates.
  • Retire com cuidado, com uma colher pequena, a semente e polpa. Não fure as cascas! Eu guardo a polpa e uso em outras receitas.
  • Vire os tomates de cabeça para baixo em papel toalha para escorrerem
  • Aqueça o azeite em uma frigideira. Coloque a cebola, o alho e a pimenta calabresa. Refogue por 5 minutinhos.
  • Retire a frigideira do fogo e junte o pão ralado, as anchovas, as azeitonas e as ervas. Misture bem.
  • Recheie os tomates e coloque-os em uma assadeira.
  • Regue com azeite, jogue o queijo ralado
  • Leve a forno pré-aquecido a 180º até os tomates ficarem macios e o topo do recheio tostadinho. Isso leva uns 15 a 20 minutinhos.
  • Vocês podem servir quentinhos ou esperar e comer em temperatura ambiente.

Espero que gostem da receita romântica de hoje!

Bom apetite!

Até a próxima!

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