Viagem a dois: Os Jardins do Cloisters Museum em Nova Iorque

Os Jardins do Cloisters

Eu gosto de museus. Não sei se vocês vivem essa mesma vibe, mas para mim há museus que valem uma viagem inteira! No caso de Nova Iorque, por mais que lá não seja uma cidade assim tão antiga quanto algumas do Velho Mundo, não podemos menosprezá-la. A Big Apple é um centro de referência artística extremamente importante porque abriga alguns dos maiores centros culturais e museus do mundo. Sou uma romântica incorrigível e acredito que sem dúvida alguma as artes são uma forma única de sentir a vida pulsar. É por isso que para mim passeios culturais enchem o coração de amor. Em Nova Iorque existem vários, e certamente entre eles vocês podem incluir caminhar pelos jardins do Cloisters Museum.

Antes que eu comece a falar sobre o museu, quero fazer um à parte: o Cloisters e seus belos jardins é um espaço cultural surpreendentemente negligenciado por muitos que visitam Nova Iorque, especialmente por nós brasileiros. Talvez isso ocorra por causa da sua relativa distância do centro cultural pulsante da cidade. Isso é uma pena! Sim, eu entendo: há muito a ser visto e geralmente viajamos com o tempo contado. Porém, eu acredito que os melhores roteiros são aqueles que as pessoas quase nunca exploram. Nova Iorque tem muitos, e este museu é um deles.

À primeira vista, quando chegamos ao Cloisters, nem parece que estamos naquela cidade movimentada, cheia de luzes e barulhos. Lá, somos inesperadamente transportados para tempos e lugares longínquos. O sentimento que me veio ao colocar os pés ali foi uma mistura de assombro com encantamento. É que a principio pareceu-me improvável que um lugar como aquele estivesse em uma metrópole como Nova Iorque. Aquilo se espera na Europa.

Em Paris, por exemplo, existe um museu medieval com um jardim anexo bem no meio da cidade: o Musée de Cluny (está na minha lista de lugares para visitar na vida). Certamente este será um lugar que amarei, mas creio que o ineditismo de ter visto algo assim em Nova Iorque deva ser levado em conta. Paisagens medievais são comuns no Velho Mundo, mas aqui, nas Américas, redutos como este são no mínimo surpreendentes. Portanto, gente, vale a ida!

Uma Pitada de Arte

Para quem não sabe, o Cloisters é um ramo do Metropolitan Museum of Art (MET para os íntimos) especializado em arte medieval. Além dele, em março de 2016 o museu inaugurou o Breuer, sua extensão dedicada à arte contemporânea e moderna dos séculos XX e XXI. Se vocês quiserem, em outra oportunidade posso detalhar a minha visita ao MET. De toda forma, deixo de antemão registrado que para mim ir ao Metropolitan Museum of Art é um roteiro inegavelmente obrigatório quando se está em Nova Iorque. Mas por hoje, vamos passear nos jardins do Cloisters? 

O Metropolitan Art Museum na Quinta Avenida

The Cloisters Museum

A proposta do Cloisters é ser um museu dedicado exclusivamente à arte, arquitetura e botânica medievais. Ele fica ao norte de Manhattan, em uma colina com uma bela vista para Nova Jersey, às margens do Rio Hudson, no Parque Fort Tryon. Lá é bem alto, sendo assim, um lugar perfeito para fotos! Quando forem visitar o museu, tirem o dia. Não vou mentir: o lugar fica no Harlem, portanto é realmente afastado do centrão de Manhattan.

O Fort Tryon Park com o Cloisters ao fundo

Mas querem saber? Usem esse passeio pelos jardins do Cloisters como desculpa para explorar a efervescência cultural do Harlem. Esse bairro é o reduto negro de Nova Iorque. Lá é cheio de barzinhos, casas de espetáculos e centros culturais onde vocês podem curtir ótimas apresentações de jazz, blues e, além disso, de quebra, conhecer um pouco sobre a história da cultura negra nos Estados Unidos. Para que o passeio seja um sucesso, primeiramente se planejem para saírem cedo. Deste modo vocês poderão curtir o parque Fort Tryon, passear pelos jardins do Cloisters, conhecer o acervo do museu e, por fim, saindo de lá, poderão fazer uma pausa para jantar e curtir uma boa apresentação musical! Vai valer a pena!

Entrada do museu

O nome Cloisters

Preparados? Vamos começar nosso passeio? Primeiramente entendamos o que é o museu. Cloisters significa Claustro. Na arquitetura, por definição, eles são uma passagem coberta ao redor de um grande pátio aberto, com acesso a todos os edifícios monásticos. Claustros são um corredor de passagem e procissão, mas não apenas. Eles são também um lugar para meditação e leitura.

Claustro de Cuxa

Então vocês me perguntam: mas Nicole, o museu é uma cópia de alguma construção monástica medieval europeia? A resposta a essa pergunta é não. Para ilustrar o que o pessoal fez lá, imaginem uma grande colcha de retalhos. Pois é: O edifício do Cloisters é um conjunto arquitetônico formado a partir de um estudo histórico que combinou espaços eclesiásticos e seculares europeus medievais organizados em ordem cronológica. Além disso, o projeto contemplou os três jardins que foram cuidadosamente planejados de acordo com estudos paisagísticos e botânicos do período.

Aberturas góticas trilobadas do claustro de Froville que foram retirados da França e remontados no museu em Nova Iorque.

Os cinco claustros franceses

A base arquitetônica que justifica o nome do museu traz elementos que foram realocados de cinco claustros franceses: a abadia beneditina de Saint-Michel-de-Cuxa, o monastério beneditino de Saint-Guilhem-le-Désert, a abadia cisterciense de Bonnefont-en-Comminges, o convento carmelita de Trie-sur-Baïse e a igreja cluniacense de Froville.

Imaginem só o quão faraônica foi a construção deste museu: Entre 1934 e 1939 partes destas construções foram transportadas, reconstruídas e integradas ao projeto arquitetônico do museu, feito por Charles Collens. Entre os prédios que fazem parte do local, existem ainda capelas, salões inteiros vindos de outras construções religiosas e seculares europeias além dos claustros citados. As duas referências arquitetônicas predominantes são a gótica e a românica.

Os três jardins do Cloisters estão junto a três destes claustros: na entrada principal, no Saint-Michel-de-Cuxa, e no andar de baixo no Bonnefont-en-Comminges e no Trie-sur-Baïse.

Parte da estrutura do Saint-Guilhem Cloister

Os mecenas do Cloisters

Essa obra foi possível graças a John D. Rockefeller Jr. Ele financiou a conversão de quase sessenta e sete acres de terra em um parque público para abrigar o prédio do museu, o Parque Fort Tryon. Além disso, o magnata doou mais setecentos acres para estabelecer um parque adicional ao longo das Paliçadas de Nova Jersey, o Palisades Interstate Park. Desta forma ele garantiu que a vista do rio Hudson a partir do Cloisters permaneceria intacta.

Ao longe a torre do Cloisters vista da outra margem do rio Hudson

Entretanto, bem antes de o Cloisters ser idealizado, o acervo de arte medieval já estava sendo construído no Metropolitan Museum desde o final do século XIX. Nele existem peças doadas e compradas por vários magnatas mecenas.

Em 1917 o filho do financista e colecionador J. P. Morgan doou ao museu cerca de dois mil objetos medievais que pertenceram a seu pai. Posteriormente, em 1941 mais de 250 objetos medievais chegaram ao Cloisters pelas mãos do banqueiro George Blumenthal. Outros que igualmente contribuíram para a coleção incluem Michael Friedsam, George e Frederic Pratt, e Irwin Untermyer.

Cloisters visto do Hudson River

Por fim, outra fonte importante para o acervo do Cloisters foi a coleção de esculturas de George Gray Barnard. Ele foi um escultor americano e ávido colecionador de arte medieval. Enquanto esteve na França trabalhando, antes da Primeira Guerra Mundial, Barnard complementou sua renda localizando e vendendo esculturas e fragmentos arquitetônicos medievais. Muita coisa ele guardou para si, deste modo ele tornou-se um prodigioso colecionador. Foi Rockefeller Jr. quem forneceu fundos que possibilitaram que o Cloisters adquirisse essa coleção de Barnard quando o escultor passou por apertos financeiros.

Entrada do prédio principal do Cloisters

O Museu

Agora que vimos como o museu foi construído e como o seu acervo foi criado, vamos entrar nesta fortaleza? A coleção do museu tem mais de 2 mil obras medievais que datam entre os séculos XII e XV. No acervo estão artefatos sacros da nobreza e clero europeus, móveis, tapeçarias, livros, retratos, assim como também objetos pessoais e de uso cotidiano, vitrais e esculturas. Além disso, não se pode negar que a arquitetura e os jardins do Cloisters sozinhos já são uma obra de arte.

Bordado em tecido – cena da Anunciação – metade do século XV – Galeria 14 do Cloisters

The Cloisters Playing Cards – É um conjunto de cartas de jogo datadas entre 1475 e 1480. Podem ser vistas na galeria 13

Tapeçarias

Provavelmente uma das peças mais visadas do museu está na galeria 17. Na verdade, não estou falando de uma única peça, mas sim de várias. Trata-se do conjunto de tapeçarias holandesas com 7 peças que representam A Caça do Unicórnio, datadas entre os anos de 1495 e 1505.

Em uma paisagem rica de flora e fauna, a criatura mítica tenta em vão escapar dos homens e cachorros que a perseguem. Essas peças são um exemplo das tapeçarias Mille Fleurs (mil flores), que tem como característica um background com inúmeras flores e plantas diferentes. Estas tapeçarias foram muito comuns no fim da Idade Média e início do Renascimento.

Observem bem essa série da Caça do Unicórnio: É que nos jardins do Cloisters, mais especificamente no Bonnefont, vocês verão as plantas de onde foram extraídos os pigmentos utilizados na confecção desta e de tantas outras tapeçarias da época. Isso sem falar que boa parte desta flora representada está presente ao vivo e a cores nos jardins.

A captura do Unicórnio – arquivo público de imagens do MET

Os Nove Heróis

Além da Caça do Unicórnio, vocês verão outras tapeçarias belíssimas, como essa abaixo, que fica na galeria 16. Ela também se enquadra na categoria Mille Fleurs. Ai estão os distintivos de John, Lord Dynham, da Holanda. Esta peça foi feita entre os anos de 1488–1501.

Entretanto, outro grupo de tapeçarias me chamou atenção: o conjunto dos Nove Heróis. Elas ficam na galeria 18 e foram feitas em torno do ano 1400. Nelas são retratados os nove heróis da Idade Média celebrados em um poema de Jacques de Longuyon, escrito no século XIV. Do conjunto original, cinco tapeçarias sobreviveram intactas: David e Joshua da tradição judaica; Hector e Júlio Cesar da tradição Clássica e Artur, o lendário rei da Inglaterra da tradição cristã.

Tapeçaria dos Nove Heróis: Rei Artur

Livros, iluminuras e pergaminhos

Uma coisa que sem dúvida alguma achei super bacana no acervo do museu são as iluminuras: pinturas decorativas aplicadas às primeiras letras dos códices de pergaminhos e livros medievais de uma forma geral.

Manuscrito de uma Bíblia com iluminura na inicial V – Ano 1175-95 – Cloisters Galeria 14

Por lá estão também livros de orações e fragmentos da Bíblia. Na Galeria 13, por exemplo, encontramos o Livro das Horas da rainha da França Jeanne d’Evreux, encomendado pelo seu esposo, o rei Carlos IV da França, como presente, e iluminado por Jean Pucelle entre 1324 e 1328.

As Horas de Jeanne d’Evreux, rainha da França

Não deixem de ver

Pessoal, para não transformar este post em uma visita guiada ao museu, e lembrando que quero muito falar com vocês sobre os jardins do Cloisters, vou colocar aqui algumas das peças que acredito que vocês não podem deixar de ver.

A Cruz de Cloisters

A Cruz de Cloisters é certamente um bom exemplo de obra-prima da arte românica e pode ser vista na galeria 14. Ela é feita em marfim e trabalhada em alto relevo de ambos os lados. Estima-se que tenha sido esculpida entre os anos de 1150 e 1160. Para vocês terem uma ideia de quão genial é essa peça, existem nela cerca de noventa e duas figuras e noventa e oito inscrições. Acredita-se que ela tenha sido feita na Inglaterra.

De um dos lados, vemos um tronco estilizado de uma árvore sobreposto à cruz. Já nas extremidades, estão cenas da morte e ressurreição de Jesus. Do lado oposto, vemos os profetas judeus, cada um segurando um pergaminho. Eles cercam um medalhão alegórico central do Cordeiro de Deus que aparentemente está sendo perfurado pela personificação da Sinagoga. Nas extremidades, vemos os símbolos dos Evangelistas: o leão de Marcos à esquerda, o boi de Lucas à direita e a águia de João no topo. Por fim, o anjo de Mateus ficava na parte de baixo, mas se perdeu.

Definitivamente, uma coisa que me impressiona muito nesta cruz é a quantidade de informações teológicas e sociais que ela traz. Embora eu não queira delongar muito neste assunto, é preciso dizer que houve durante a idade média um sentimento antijudaico muito arraigado na Europa, e em especial na Inglaterra, que os expulsou do país no século XIII. Entre as inscrições há várias invectivas fortes contra os judeus. Então, além de ser do ponto de vista estético uma peça extremamente relevante, essa cruz conta uma história e ilustra bem o período em que foi concebida.

O Retábulo de Mérode

Este retábulo é um tríptico (pintura em três partes) provavelmente executado por discípulos do pintor flamengo Robert Campin. Ele foi criado entre 1427 e 1432. No meio, a cena da Anunciação. À direita, São José trabalhando na carpintaria, enquanto à esquerda está o retrato dos doadores, ou seja, aqueles que encomendaram a obra. Este retábulo pertenceu a duas famílias aristocráticas belgas: Arenberg e Mérode. Ele fica em exposição na galeria 19.

Pois bem: esse tríptico é uma obra devocional doméstica. Os proprietários provavelmente o encomendaram com a finalidade de usá-lo em oração privada. Não sei se vocês já observaram, mas ao longo da história, muitas obras representando a Anunciação foram feitas. Todavia, em praticamente todas elas a cena da Anunciação acontece em lugares simbólicos, sagrados.

O fato desta Anunciação ter sido pintada em um ambiente doméstico mostra a preocupação de se levar a fé para dentro dos lares. Talvez a fé dos patrocinadores da obra tenha sido reforçada com a imagem da concepção de Cristo dentro de um local parecido com o que eles viviam. Com certeza a presença deles no contexto da pintura os coloca como testemunhas de um acontecimento sagrado, reforçando assim essa relação doméstica com a fé, tão importante no período.

Esculturas de Tilman Riemenschneider

O Bispo Sentado

Dentre as belíssimas esculturas que o Cloisters exibe, achei muito interessantes as de Tilman Riemenschneider. Ele foi um escultor alemão do período medieval tardio. De um modo geral, os escultores de madeira alemães deste período deixavam as esculturas de grandes retábulos sem pintura. Para criar um efeito nas peças, eles manchavam alguns de seus detalhes, como olhos, por exemplo, em preto e terminavam a superfície da escultura com um esmalte claro.

Do mesmo escultor está também em exposição a peça Os Três Santos Auxiliadores: São Cristóvão, Santo Eustáquio e Santo Erasmo. Ambas podem ser visitadas na galeria 20.

Os Santos Cristóvão, Eustáquio e Erasmo

Vitrais e Capelas

Por fim, pessoal, não deixem de prestar atenção às portas, às fechaduras e aos corredores. Todos os detalhes deste lugar são uma obra de arte. Só para ilustrar isso, presentem bem atenção no primeiro andar do museu. Ao caminhar pelos portais do hall românico, vocês vão chegar até a Capela de Notre-Dame-du-Bourg de Langon. Lá vocês verão belíssimos vitrais e lindos entalhes da Virgem e Filho Entronados.

Capela de Notre-Dame-du-Bourg em Langon – galeria 4

Prosseguindo pelo primeiro andar, vocês vão topar nas galerias 2 e 9 com dois lugares absolutamente imperdíveis no museu: a Capela Gótica (galeria 9) e a Abside de San Martín de Fuentidueña (galeria 2). A primeira é uma capela inspirada nas do século XIII. A Abside é uma lindíssima capela em estilo Românico!

Capela Gótica

Esta capela não veio desmontada para ser remontada de nenhum lugar na Europa. Ela foi realmente projetada para fazer parte do museu. Entretanto, em seu interior há elementos que vieram de outros lugares. Um exemplo são esses belos vitrais.

Eles são austríacos do século XIV vindos da Igreja de Saint Leonhard na Caríntia e da capela do castelo Ebreichsdorf, nas proximidades de Viena.

A efígie de meados do século XIII do cruzado Jean d’Alluye está no centro do espaço ladeado por túmulos catalães do século XIV, dos condes de Urgel.

Tumba do cavaleiro Jean d’Aluye

Abside de San Martín de Fuentidueña

Esta abside veio da igreja de San Martin de Fuentidueña, na Segóvia, Espanha. Para mim, depois dos jardins do Cloisters este é o lugar mais espetacular do museu. Essa abside surpreendentemente tem um grande número de figuras nos seus pilares. Pelo que entendi nas apresentações do local, isso não era lá tão comum assim. Além de São Martinho, patrono da igreja, está lá o anjo Gabriel da Anunciação à Virgem.

A Capela de Fuentedueña

Além disso, em uma estrutura acima da Anunciação há uma cena representando a Natividade. As estruturas que sustentam o arco triunfal mostram de um lado a Adoração dos Magos e do outro Daniel, no Covil dos Leões.

Agora, reparem neste afresco belíssimo que fica bem no centro da abóbada da capela:

A Virgem e a Criança em majestade e a adoração dos reis magos

Lindo, não acham? Pois é, ele não veio da igreja de Fuentidueña, mas foi montado ai. Nele estão os reis magos abordando a virgem e o menino entronados na companhia de arcanjos. O local de origem deste afresco é a igreja da Virgem, perto de Tredós, nas proximidades dos Pireneus, na fronteira entre a Espanha e a França.

Essa igreja, segundo a história, foi controlada por cavaleiros templários por causa de sua posição militarmente estratégica. Durante a guerra civil espanhola ela foi saqueada. Seus afrescos foram adquiridos por museus e colecionadores particulares, enquanto vários objetos acabaram desaparecendo definitivamente.

Gostaram desse passeio dentro do museu? Então agora preparem-se porque a parte mais linda e romântica vem agora. Vamos entrar nos jardins das delícias, quero dizer: nos jardins do Cloisters Museum!

Os Jardins do Cloisters Museum

Houve durante a idade média uma dominação grande por parte da igreja católica. Consequentemente, monastérios eram construções importantes para a sobrevivência das cidades. Os prédios monásticos eram centros de toda a atividade social e nisso incluía-se também a agricultura de subsistência.

Os jardins durante a idade média se reduziram a áreas confinadas em claustros destinadas ao cultivo. Eles eram funcionais e neles se plantavam frutas, hortaliças, ervas, plantas medicinais e flores para a ornamentação dos altares. Esses jardins eram divididos em canteiros quadrados ou retangulares e as plantas eram assim distribuídas harmoniosamente deixando o ambiente com o ar puro, perfumado e propício ao repouso e à contemplação.

Alimentos para o corpo e para a alma

Existia nesses jardins um caráter místico. As flores emanavam virtudes. As rosas, por exemplo, eram dedicadas à Virgem Maria. Os Lírios denotavam espiritualidade e estavam sempre presentes em jardins monásticos. E não pensem que era somente por sua beleza, seu cheiro e seu valor espiritual. Além de serem muito amados e sagrados, os lírios foram nesta época remédio humilde usado para tratamento de calvice, queimaduras e picadas de cobras e escorpiões. Não sei quais são as suas propriedades e nem como ele era usado. Portanto, crianças, não tentem isso em casa!

Lírios brancos: uma das flores mais amadas da idade média e a mais sagrada entre as plantas símbolo.

As plantas medicinais eram base para remédios, cosméticos e perfumes. Entretanto, é interessante lembrar que entre elas havia várias que eram mal vistas por terem “poderes mágicos” ligados à bruxaria. Talvez nos jardins monásticos medievais algumas delas não figurassem. Todavia, elas estão bem presentes nos jardins do Cloisters, em especial no Bonnefont. Lá elas estão bem sinalizadas com plaquinhas que dizem quando são venenos ou plantas usadas em bruxarias.

Ervas aromáticas como o alecrim e a lavanda eram usados tanto como temperos quanto como medicamentos.

O Projeto dos Jardins do Cloisters

Os jardins do Cloisters foram projetados a partir de textos medievais sobre plantas, seu cultivo e utilização. Carlos Magno publicou no século IX um documento com uma lista das plantas que deveriam ser semeadas no império. Fora este texto, há outras fontes, principalmente dentro de poemas e registros eclesiásticos. Nos jardins do Cloisters encontra-se, portanto, uma grande variedade de espécies de plantas medievais raras.

Apenas para dar um número: são mais de 250 espécies de flores, ervas, árvores e frutos. Isso faz destes três jardins uma das mais importantes coleções botânicas especializadas na idade média do mundo.

Bonnefont Cloister

Visitando os jardins

Sem dúvida alguma a época mais bonita para visitar os jardins do Cloisters é entre a primavera e o verão, quando as plantas estão no auge da beleza. Os cuidados com as espécies ficam a cargo de horticultores. Os membros seniores deste grupo são, no entanto, mais do que especialistas em jardinagem. Eles são também historiadores de plantas antigas e técnicas medievais de jardinagem. Portanto, se vocês dominarem inglês e toparem com alguns deles por lá, digo por experiência própria: vale a pena o bate-papo!

Crocus Sativus, vulgo: flores de açafrão. É delas que são extraídos os pistilos, esta iguaria caríssima que a gente ama usar na cozinha

Tours

Uma dica legal é ficar de olho nas visitas guiadas programadas no site do museu. De maio a outubro são realizados tours pelos jardins todos os dias às 13h, faça chuva ou faça sol. Essas visitas estão inclusas no valor do ingresso para o Museu. A história por trás das plantas é muito rica e o passeio de vocês sem dúvida alguma ficará muito mais especial assim.

Existem também MP3 players para alugar contendo visitas guiadas. Eu não aluguei, porém, se vocês quiserem, o valor gira em torno de 6 dólares. Eles tem aproximadamente duas horas de gravações. São 75 paradas e o melhor de tudo é que vocês podem customizar o tour de acordo com os seus interesses. Nos áudios tem descrições sobre arte e cultura medievais, além disso eles trazem informações específicas sobre o Cloisters, a sua arquitetura e os seus jardins. Não tive a certeza se existem áudios em português. Com segurança em inglês e espanhol estão disponíveis.

No inverno as visitas aos jardins do Cloisters ficam mais restritas. No entanto, as galerias internas do museu são transformadas em estufas onde plantas de vaso são exibidas e flores de primavera são forçadas a florescer precocemente.

Os Três Jardins

Como eu disse lá em cima, no Cloisters existem três jardins: O Judy Black Garden, que fica no Cuxa Cloister, no nível principal da construção. Depois, temos o Bonnefont Cloisters e o Trie Cloisters no nível inferior. Cada um deles é único. Eles foram originalmente plantados em 1938, quando o museu foi inaugurado. Estejam preparados para muitas fotos e suspiros! É que a vista dos jardins é estonteante!

Uma curiosidade bacana de lá, que eu adiantei quando falei das tapeçarias, é a justaposição da arte com a natureza. As plantas que vemos nas obras de arte estão ao vivo e a cores espalhadas ao longo dos três jardins do Cloisters. Quando me dei conta disso fiquei maravilhada! Vocês acreditam que voltei ao museu para confirmar o que meus olhos viam?

Assistam a esse vídeo curtinho. Ele tem doses cavalares de fofura. A entrevistadora mirim conversa com um dos responsáveis pelos cuidados com as plantas e ele dá a ela explicações muito interessantes sobre o que são as plantas medievais, fala de sua serventia e a forma como elas são categorizadas nos jardins. Acionem as legendas no Youtube!

Judy Black Garden

O Judy Black Garden fica no Cuxa Cloister e é o principal jardim ornamental do museu. Ele é a nossa primeira impressão. Dentre os jardins do Cloisters, este foi feito quase que exclusivamente para ser admirado. Por isso, dos três, ele é o que possui espécies de plantas medievais misturadas a plantas modernas.

O projeto paisagístico dele nos remete aos jardins feitos perto dos complexos monásticos medievais: dividido em quadrantes em formato de cruz com uma fonte no centro.

Fonte do Cuxa Cloister feita em mármore rosa

A ideia do Judy Black Garden é nos encantar e nos transportar para uma atmosfera “Jardim das Delícias”. Principalmente na época de primavera, a sua beleza e o cheiro das flores e ervas fazem o passeio ser muito romântico e especial.

Trie Cloister Garden

O Trier Cloister fica no andar de baixo do museu. Eu achei ele bem interessante. Dentre os três jardins do Cloisters, ele foi o único que mudou completamente a sua concepção ao longo dos anos.

Inicialmente ele foi concebido para ser um jardim de paisagem inspirado na segunda tapeçaria do Unicórnio.

The Unicorn is Found – Segunda tapeçaria da série

Entretanto, hoje ele é um único campo de ervas e flores inspirado de forma genérica nas tapeçarias com motivos Mille Fleur, com suas milhares de florzinhas e plantas florescendo simultaneamente.

Se vocês quiserem fazer uma pausa para um café contemplativo, este jardim é o lugar. Ao menos entre Abril e Outubro. É que ali funciona um café. Entretanto, durante o inverno ele fecha. Por lá nada de luxo: o café é um lugar para se comer um sanduíche, tomar algo quente, quiçá uma taça de vinho… é mesmo um local para se fazer uma pausa, suspirar e namorar!

Trie Cloister e o seu café no claustro nas laterais

 Bonnefont Cloisters

Dois três jardins do Cloisters, este talvez seja o mais emblemático e considerado por muitos o mais importante. Isso porque ele abriga a maior parte da coleção de plantas medievais, especialmente as raras. Ele está no ponto mais baixo do museu e recebe muitos programas educacionais, sendo, portanto, palco de estudos.

O seu projeto é tipicamente medieval, com uma geometria simples que contempla pequenos canteiros e um jardim central. Por lá as plantas são divididas entre os canteiros e etiquetadas por uso: plantas mágicas, medicinais, para uso doméstico ou industrial. Assim como as plantas recebem etiquetas, os canteiros também as recebem, pois eles tem nomes.

Um bom exemplo é o canteiro Arts Material Bed (canteiro dos materiais das artes), um dos mais famosos do jardim. Lá estão as três plantas usadas para fornecer as cores presentes na Tapeçaria do Unicórnio. Para quem quer saber quais são, lá vai: O vermelho era extraído da raiz de uma planta chamada Madder, por aqui conhecida como Ruiva dos Tintureiros. Já o amarelo saia das florzinhas da Gonda, também conhecida como o Lírio dos Tintureiros. Por fim, o azul era extraído das folhas do Pastel de tintureiro. O verde era obtido misturando o azul com o amarelo.

Ruiva dos Tintureiros

Outras preciosidades do Bonnefont

Neste jardim temos também a presença da emblemática mandrágora, planta conhecida por seus “poderes mágicos e afrodisíacos” contidos em sua raiz de formato humanoide. Já falei dela aqui naquele post com a receita dos tomates recheados, estão lembrados?

Página sobre a Mandrágora no manuscrito Tacuinum Sanitatis, uma obra sobre plantas e hábitos de saúde que circulava pela Europa durante a idade média

E para vocês terem uma ideia de como as coisas não são fáceis, os responsáveis pelos jardins do Cloisters com quem conversei quando estive lá me disseram que a pesquisa para encontrar exemplares raros da botânica medieval é um esforço contínuo. A Mandrágora demorou anos para germinar. Eles conseguiram semear mandrágoras nos anos 1990, mas na hora de transplantar as mudas para o jardim, elas morriam. As emblemáticas plantas só conseguiram realmente se firmar no Bonnefont e efetivamente darem frutos em 2008.

A mandrágora. Supostamente seus poderes mágicos estariam na raiz. Ela dá frutos do tamanho de tomates cereja, mas estes são venenosos.

Além da Mandrágora, no Bonnefont encontramos belíssimos pés de marmelo e romãs

Uma outra coisa que para mim não foi exatamente uma surpresa, mas que sempre que encontro fico com o coração cheio de alegria é a lavanda. Na idade média ela era muito usada tanto na cozinha, quanto na confecção de chás, cosméticos e medicamentos. Segundo as velhas receitinhas da vovó, chá de lavanda é bom para acalmar, acalma o estômago, alivia dores de cabeça, sem falar em suas propriedades broncodilatadoras, antitérmicas e curativas.

Lavanda, planta muito usada tanto na cozinha quanto como remédio e cosmético.

Como chegar

E ai? gostaram de conhecer os jardins do Cloisters? Espero que sim! De verdade, gente, reservem um dia da viagem de vocês para fazerem este passeio! Para chegar ao museu você tem três opções: ou vocês vão de carro, ou vocês vão de metrô ou vocês vão de ônibus. De carro é bem simples: coloquem no GPS o endereço que não haverá erro.

Agora, se vocês quiserem ir de ônibus, reservem um pouco mais de tempo, porque o trajeto será mais demoradinho. Sigam até o Metropolitan Museum. Lá, peguem o ônibus M4 (Madison Avenue/ rua 83) até a última parada, que já é no Cloisters.

Caso queiram mesmo fazer como fiz, ir de metrô, peguem o trem A para a rua 190. Saiam da estação pelo elevador. Ai vocês escolhem: podem fazer uma caminhadinha de uns 10 minutos ao longo da Margaret Corbin Drive, ou podem pegar o ônibus M4 seguindo para o norte até a sua última parada.

Quanto custa?

Uma coisa importante: tem muito site por ai que diz que o Metropolitan de uma forma geral não exige um preço específico para a entrada, e que a gente paga o quanto quiser. Isso é uma meia verdade, pessoal. Essa facilidade só é válida para cidadãos novaiorquinos. Para nós, pobres mortais brazucas em terras estrangeiras, o valor da entrada é o mesmo cobrado do resto do mundo: algo em trono de U$25,00.

Eu não ia nem falar isso aqui, porque a sugestão que farei é um tanto quanto “missão impossível”, mas vai saber, né? É que quando compramos o ingresso para um dos três museus ligados ao Metropolitan, temos a possibilidade de no mesmo dia, com o mesmo ingresso, conhecermos todos os museus. Mas, honestamente? Para mim isso é meio surreal. Eu passarias dias e dias e dias somente para desbravar o Metropolitan! Que dirá ir ao Metropolitan, ao Cloisters e ao Breuer tudo numa tacada só! A meu ver é algo impensável!

Por fim, pessoal, eu espero que vocês curtam muito essas dicas e que os Jardins do Cloisters fiquem gravados nos seus corações como ficaram no meu!

Ah As fotos usadas aqui no post são algumas de meu arquivo pessoal e outras provenientes de arquivos públicos de compartilhamento de imagens gratuitas, dentre os quais o próprio MET que disponibiliza imagens do acervo gratuitamente em excelente resolução.

Até a próxima!

 

About Nicole Delucca Linhares

Uma jornalista obcecada pelo lado bom da vida que está sempre em busca de experiências românticas para dividir com o mundo. Apaixonada por comidinhas, pores-do-sol, plantas, livros, cinema, viagens e teatro. É também professora de italiano, cozinheira para todas as horas, filosofa de boteco e, por fim, uma mistura doida de Minas, Itália e Piauí!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *