Gastronomia Francesa com Simplicidade e Amor: La Bastille em BH

Desde o post que escrevi em 2014 sobre um bistrozinho de crepes no Buritis, venho procurando outra crêperie para morar no meu coração. É que o Bistrô de Crepes não está mais aberto e eu amo essa delícia da gastronomia francesa. Aliás, quando o assunto é comida francesa minha mente viaja. Com vocês é assim também, ou isso é mal de quem já se perdeu há tempos em desvarios glutões? Sim, eu sei: sempre digo que sou uma mistura de Minas, Itália e Piauí. Mas não tem como simplesmente não amar a gastronomia francesa.

Bouillabaisse, um clássico da gastronomia francesa mediterrânea.

Portanto, apesar de no corpo correr um sangue mineiro, italiano e piauiense, no coração e no estômago tenho espaço para todos os lugares do mundo… Se a comida for boa, não importa de onde ela venha.

Outro clássico da gastronomia francesa: Magret de Pato sendo preparado

O que interessa é o sabor. E sabor, isso a gastronomia francesa tem de sobra tanto no seu rebuscamento quanto na sua simplicidade.

As lindíssimas baguetes da Bagueteria Francesa aqui de BH

Meu novo Cantinho Francês do Coração em BH

Conheci semana passada a La Bastille Crêperie, Pâtisserie e Chocolaterie. Imaginem o quão feliz fiquei por finalmente encontrar outra Crêperie com um delicioso sotaque francês para morar no meu coração!

E mais do que isso! Minha felicidade se multiplicou diante da constatação de que além dos crepes, eu havia encontrado também um recanto cheio de doces franceses maravilhosos feitos com esmero por mãos talentosas.

A estufa recheada de delícias que saem da cozinha do Florian… Esses ai, por exemplo, são os Entremets

A casa inaugurou no final do ano passado com a proposta de apresentar uma gastronomia francesa descomplicada. O menu salgado é baseado em crepes e lanches simples com sotaque francês. Já o cardápio de doces, traz o que há de melhor da clássica confeitaria francesa: uma tentação atrás da outra.

Outro clássico da gastronomia francesa: macarons – foto de divulgação – Instagram La Bastille.

Ao que parece, eles estão caminhando bem. Cheguei lá numa quarta-feira por volta das 17h. O lugar não estava assim muito cheio. Deu para fazer fotos do espaço e os proprietários Guy Ferchouli e Florian Laroche puderam conversar um pouco comigo sobre a casa.

Uma vista do salão: Lugarzinho deliciosamente aconchegante

Por volta das 18h, no entanto, o local começou a se encher. Às 19h, quando fui embora, todas as mesas estavam ocupadas. Na ponta um grupo de amigas fazendo um pequeno happy hour e nas demais mesinhas, casais curtindo a companhia um do outro.

Cá entre nós: um programinha romântico perfeito para um início de noite de quarta-feira enquanto se espera o trânsito melhorar para ir para casa após um dia de trabalho. Por estar no coração da Savassi, eu diria inclusive que lá é um lugarzinho ótimo para casais que procuram um cantinho tranquilo e descompromissado para seus primeiros encontros.

Gastronomia francesa, delicadezas e literatura

Eu tenho uma antena ligada ao coração que dispara um alarme ao menor sinal de fofura. Sendo assim, logo que coloquei os meus pés ali alguns detalhes me saltaram aos olhos. A França é um país que nos remete a uma ideia romântica. Não sei se é a tradição das Chanson Française que moram no nosso imaginário como sendo trilhas sonoras de romances.

Ou se é a visão doce que muitas vezes o cinema nos trouxe das paisagens francesas, em especial as parisienses.

Mas fato é que somente de se ter como premissa que o lugar tem um sotaque francês já saímos de casa com uma leve tendência a nos encantarmos por ele.

A Musica…

O ambiente já começa a nos envolver com a trilha sonora. A playlist de musicas francesas é extremamente agradável e enquanto estive ali escutei um pouco de tudo. Sou fã de musica francesa e costumo ter nomes como Zaz, Camille, Vanessa Paradis, Françoise Hardy e Pauline Croze nas minhas playlists enquanto trabalho.

Detalhes da iluminação que trazem aconchego para o lugar

A decoração…

Logo depois da música, outra coisa que me chamou atenção naquele lugarzinho pequenino foi uma chiffonier lindíssima de madeira rústica que o Guy me contou que tinha sido de sua avó. Ele me explicou que essa espécie de cômoda era usada para guardar panos, toalhas e tudo mais que se pudesse usar à mesa. Achei o móvel extremamente charmoso.

Chiffonier da avó do Guy

Nas paredes estão quadros com propagandas francesas antigas, recortes de jornais e fotografias. Impossível não sermos assim transportados para o clima gostoso de um café parisiense. Mas todas essas fofuras não são por acaso. Guy, que está no Brasil há aproximadamente 20 anos, já trabalhou também com decoração.

Literatura…

Aquele lugar ganhou de fato meu coração quando me deparei com os livros. Livros são objetos que mexem com meu coração e para mim eles combinam muito com lugarzinhos como o La Bastille. Talvez seja um condicionamento meu por conhecer e compartilhar de alguns hábitos de além mar. É que é comum na Europa as pessoas simplesmente pararem em algum café para ler um jornal ou um livro depois do almoço ou no fim da tarde.

Aqui no Brasil isso está ficando cada vez mais forte com a onda de cafeterias que tem inaugurado ultimamente. E mais do que isso, a nova configuração no mercado de trabalho tem feito muita gente empreender ou virar prestador de serviços. Deste modo estamos tendo um número crescente de pessoas em busca de lugares aconchegantes e especiais para passar o dia, trabalhar, ler, lanchar e no final do dia tomar um bom vinho antes de ir pra casa.

Uma das minhas tantas idas a algum lugar para ler

No meu caso esse sempre foi um hábito arraigado. Minha bolsa é mais pesada do que o normal porque sempre carrego nela algum livro. Sair de casa sem ele é como se eu estivesse saindo sem roupas! Nunca sei onde e quando terei a oportunidade de sentar e ler um pouco. Mas fato é que ao longo do dia sempre encontro esses momentos e lugares como o La Bastille.

Prateleira de livros disponíveis para empréstimo na casa. Vários deles estão em francês!

Desta vez não peguei meu livro para ler. É que fiquei encantada com os de lá. A estante fica ali, ao acesso de todos. Podemos pegar emprestado qualquer livro, inclusive para levar para casa e depois devolver. Estão vendo só? Esse pessoal não se cansa de nos dar bons motivos para voltar!

Livros até mesmo nos cardápios…

Mas além dos livros disponíveis para leitura, em função de um “esquecimento”, Guy acabou fazendo uma das coisas mais legais do mundo: O cardápio do La Bastille está nas páginas introdutórias de livros franceses. Sabem, aquelas páginas brancas do início das publicações? Pois é, gente! No corre-corre para deixar a casa arrumada para a inauguração, ele acabou se esquecendo de pensar no cardápio. Como já estava em cima da hora, a solução foi usar a criatividade. Olhem ai e me digam se foi ou não uma das ideias mais lindas que ele poderia ter tido! É claro que depois ele teve tempo de repensar a coisa. Mas sinceramente? Em time que está ganhando não se mexe. A ideia é maravilhosa e dá ao lugar com um charme a mais.

Em cada uma das mesas, um livro diferente. Dá para escolhermos os nossos preferidos, ou, no mínimo, ficarmos curiosos para aprender um pouco mais sobre literatura francesa. No meu caso, até pensei em arriscar ler uma ou duas paginas de algum deles. Mas meu francês não chegou ainda ao ponto de me permitir a leitura de Balzac ou Maupassant no original. Um dia eu chego lá!

Um último detalhe…

Por último, mas não menos importante, fica a dica para os colecionadores de protetores de mesa fofos. Lá eles tem um com o metrô de Paris, outro com o mapa da França e outro, para mim o mais lindo de todos, com fotos da construção da Torre Eiffel. Não precisa nem perguntar se eu trouxe um de cada para colecionar, não é mesmo?

A experiência gastronômica

Agora que já contei a vocês o quanto o lugar é lindo, romântico e inspirador, preparem-se, porque este é o momento de deixar vocês com fome! Eu fui ao La Bastille a convite dos proprietários da casa. Guy Ferchouli e Florian Laroche são dois franceses da gema que resolveram apostar no mercado belo-horizontino para mostrar o seu jeito descompromissado e competente de fazer gastronomia francesa. Florian comanda a parte doce do menu enquanto Guy é o responsável pela salgada.

Menu du jour

 

Lá é uma creperia, não é mesmo? Então, logo na entrada vemos o balcão virado para a rua Fernandes Tourinho com duas chapas redondas onde são preparados por Guy os crepes da casa. A coisa é prática. Quem estiver com pressa e quiser somente um crepe para viagem pode consultar o cardápio na parede, fazer seu pedido, e aguardar ali na rua mesmo. Guy não é exatamente um novato nesse ramo de crepes. Antes do La Bastille era ele quem comandava as chapas de crepe no La Tour Crêperie, no Sion. Mas aqui na Savassi o clima é mais despojado, apesar de todo o romantismo que descrevi lá em cima. Particularmente adoro isso!

Meu pedido

Para aquela quarta-feira escolhi experimentar o crepe La Lyonnaise (R$25,00), que era a sugestão do menu do dia. Este crepe tem bechamel, frango, champignons (vale ressaltar: são os frescos, de Paris) e queijo gruyére. Muito gostoso. Eles me perguntaram se eu iria também seguir a sugestão do dia com o vinho, um Côtes du Rhône (R$16,00 a taça). Mas infelizmente desta vez não pude aceitar. É que além de estar dirigindo, naquele dia eu ainda estava tomando um remédio para sinusite que não permitia a extravagância. Acabei escolhendo um suco de polpa de morango (R$6,00) diante da promessa de que da próxima vez tomarei o vinho.

Crepe La Lyonnaise

Além do vinho, que é vendido em taças (R$16,00) ou garrafa (R$70,00) podemos escolher ainda uma espumante (R$80,00), caipirinha (R$10,00), cerveja long neck (R$7,00), café expresso (R$4,50), chás e capuccinos (R$8,00) além de refrigerantes (R$5,00) e suco de latinha (R$6,00).

O menu de crepes

No cardápio da casa há onze opções de crepes salgados e sete doces. Os valores vão de R$14,00 a R$26,00 cada. Entre os salgados há opções vegetarianas, como o La Niçoise (R$22,00) com queijo gruyére, champignons, tomates e rúcula. Ou ainda o La Tropezienne (R$14,00) com queijo gruyére, tomates e manjericão. Dentre as opções não vegetarianas, além do Lyonnaise vocês encontrarão no cardápio o La Comptoise (R$26,00) com carne seca, queijo gruyére e salsinha; e também o L’Orleanaise (R$24,00) com presunto ou peito de peru, champignons e queijo gruyére.

Foto divulgação Instagram La Bastille

Entre os doces vocês poderão experimentar o Gourmande (R$18,00) de nutella com morangos, o La Favorite (R$20,00) de chocolate belga, morangos ou bananas ou ainda o Delicieuse (R$16,00) de caramelo com manteiga salgada. Às quartas e quintas vocês podem também optar pelo rodízio de crepes que custa R$39,90 por pessoa.

Foto divulgação – Instagram La Bastille

Além dos crepes, outra especialidade da gastronomia francesa do cardápio salgado são os clássicos Croque Monsieur (R$20,00) e o Croque Madame (R$24,00). Estes são, digamos assim, dois mistos quentes franceses gratinados que lá no La Bastille são feitos com pão de forma, presunto cozido e queijo gruyére. O que muda entre o Monsieur e o Madame é que no segundo vai um belo ovo frito por cima.

Croque Monsieur – Foto divulgação Instagram La Bastille – um clássico delicioso da gastronomia francesa

A Pâtisserie Francesa

Sabe aquela história de que a gente acaba sempre guardando as grandes surpresas para o final? Pois é. Dentro da gastronomia francesa existem inúmeras maravilhas, mas é preciso reservar um capítulo à parte para a pâtisserie. A sua elegância não depende só da escolha de ingredientes de primeira qualidade. Para fazer jus à fama que tem, a confeitaria francesa depende também da incrível precisão técnica empregada nos preparos.

A pâtisserie é uma das pérolas da gastronomia francesa. Olha a riqueza nos detalhes deste Entrement

Aqui, é importante fazer um à parte e dar muitos créditos àquele que faz essa mágica acontecer no La Bastille: Florian Laroche. Ele é francês e está aqui em BH há oito anos. Nesse meio tempo ele foi à França para estudar confeitaria e no retorno trouxe consigo a tradição da pâtisserie de seu país. Assim surgiu a Laroche. No ano passado ele e Guy resolveram se juntar para tocarem juntos o La Bastille, mas Florian já atuava no ramo com suas tortas, doces, chocolates e cursos de confeitaria francesa para pequenos grupos.

Religieuse– Foto divulgação Instagram La Bastille

Eu particularmente valorizo ao extremo os chefs que trabalham com confeitaria. Essa é uma área extremamente difícil, que requer muito conhecimento técnico. Se na cozinha salgada podemos nos dar ao luxo de vez ou outra temperarmos alguma coisa “no olho”, na confeitaria a coisa não é bem assim. A precisão é uma das suas maiores virtudes. Mais do que isso: é regra de ouro.

O menu doce…

O cardápio de Florian é um atentado à dieta de qualquer mortal. Uma das coisas que mais gosto na confeitaria francesa é que os doces não são muito doces. Raramente vemos ali o uso de leite condensado (raramente para não dizer nunca). Eu fui de Crême Brulée (R$15,00), uma grande paixão que tenho. Mas confesso que custei a chegar a uma conclusão sobre o que experimentar. Quando olhei para aquela estufa o coração disparou para muitas coisas. Fiz ali uma lista mental de doces para experimentar em visitas futuras. E olha, confesso a vocês: nem sou muito de comer doce! Juro!

Estava tão bom, mas tão bom que quando lembrei da foto ele já estava assim!

Entre eles, com certeza um dos primeiros será o Fraisier (R$18,00), aquela torta de morangos francesa linda de comer com os olhos e com a boca. A Tarte Citron (R$13,00), feita com uma base de massa sablée, creme de limão siciliano com cobertura de merengue, também disse à distância palavras doces ao meu coração. Fora isso, flertei ainda com os macarons (R$4,00 cada) e com o Entremet Caramel au Burre Salé (R$18,00), uma tortinha linda com massa sablée, caramelo salgado e mousse ao leite.

Fraisier, mais um clássico da gastronomia fracesa

Os chocolates são outro motivo para querer voltar. Além dos Entrements (R$18,00) que levam a iguaria, o Florian é tão danado que reservou um espacinho da estufa somente para expor os bombons recheados que podem ser vendidos individualmente (R$3,00), em caixas com 8 unidades (R$22,00) ou caixas com 18 unidades (R$44,00). Fica ai a dica para os apaixonados que querem dar um presente fofo e certeiro para alguém especial. Não há quem resista a um bom chocolate.

Caixas de bombons Laroche- foto de divulgação Instagram Laroche

Fim da experiência: impressões finais

Finalizei esse meu passeio pela França com um café expresso e a certeza de que o La Bastille ainda me verá por ali muitas vezes. O carinho dispensado tanto por Guy quanto por Florian não foi um privilégio só meu. Ambos conversavam atenciosamente com todos os clientes que entravam na casa. Além disso, não posso deixar de apontar a simpatia do atendimento dos garçons.

Esse ai no balcão é o Florian. Enquanto o Guy está na chapa ele fica ali conversando com todos…

O La Bastille é a prova de que a gastronomia francesa não são só pratos refinados e difíceis de serem pronunciados. Ou melhor: sim, a pronuncia às vezes enrola, mas os sabores são fáceis de serem amados. Sentimos isso a cada pedacinho de crepe e doces que levamos à boca.

Gastronomia Francesa - La Bastille BH

Detalhe do balcão: o cafezino de lá é uma delícia!

Aos casais enamorados que por ventura estiverem passando pela Savassi, não deixem de dar um pulinho nesse pedacinho da França. Não precisamos de grandes motivos para tomar uma taça de vinho e brindar a vida e o amor. São de pequenas epifanias assim ao longo da semana que alimentamos o bem-querer. É preciso surpreender. E a surpresa muitas vezes vem travestida de simplicidade num pedacinho de crepe e numa mordida deliciosa num fraisier suculento. Não duvidem de minhas palavras, somente apareçam lá e me digam depois como foi!

C’est fini!

Até a próxima!

Serviço

Endereço: R. Paraíba, 1278 – Savassi, Belo Horizonte – MG

Funcionamento: de terça a sábado das 11h às 22h – Domingo das 12h às 18h – Segunda não abre.

Telefone: (31) 3646-3863

About Nicole Delucca Linhares

Uma jornalista obcecada pelo lado bom da vida que está sempre em busca de experiências românticas para dividir com o mundo. Apaixonada por comidinhas, pores-do-sol, plantas, livros, cinema, viagens e teatro. É também professora de italiano, cozinheira para todas as horas, filosofa de boteco e, por fim, uma mistura doida de Minas, Itália e Piauí!