Dica de Leitura: Sopa de romã, uma viagem afetiva pela culinária persa

Hoje a dica de leitura vai levar vocês para uma viagem pela culinária persa. O livro da vez é o Sopa de Romã, da escritora iraniana Marsha Mehran com tradução de Nina Horta (amo!). Primeiramente, antes de falar sobre o livro, preciso dizer: a primeira vez que ouvi falar em culinária persa foi em 2002. Eu estava fazendo uma reportagem para a disciplina de jornalismo cultural na faculdade. Para ser honesta, trombei por acaso no tema, se é que podemos dizer que nessa vida as coisas acontecem por acaso.

Amigo do Rei

Portanto, em todo caso, lá estava eu, pesquisando sobre restaurantes sírios e libaneses em BH (tema da reportagem), quando me deparei com o Amigo do Rei. No site estava escrito: culinária persa. Fiquei intrigada: O que era aquilo? Nada como Santo Google na nossa vida, não é? Ao perguntar a ele lá estava: culinária iraniana. Foi assim que me dei conta de que aquele era o único restaurante do gênero do Brasil. Perguntem se a partir daquele momento a pauta da reportagem foi a mesma!? Claro que não, né! Sendo assim, fui lá, conheci Nasrin Haddad, a Cadbanou (chef) e seu marido Claudio Battaglia e conversei com eles. Meu mundo se expandiu. Foi naquele momento que me encantei por esse universo e passei a estudar especiarias e sabores médio orientais.

Sopa de Romã – foto divulgação Amigo do Rei

O jantar que degustei por lá está em minha memória até hoje. Ele foi uma das experiências mais marcantes que já vivi do ponto de vista gastronômico. Para a entrada óche anór, uma sopa de romãs. O prato principal foi um Fessenjohn: esferas de carne com molho a base de nozes e romãs. Por fim, de sobremesa, um dos doces mais gostosos que já experimentei na vida: Ranghinack. Ele é feito a base de tâmaras, nozes e um molho sólido e espesso que dá uma leve sensação de calor na boca.

Ranghinack, foto divulgação Amigo do Rei

Contudo, infelizmente para nós de BH, e sorte para a turma de São Paulo, Nasrin e família se transferiram em 2012 para a terra da garoa. Hoje em dia ela recebe em casa grupos de até 8 pessoas em jantares exclusivos. É preciso reservar antes e a experiência também é mágica. Mas vou contar mais sobre ela em outro post, combinados?

Culinária persa e romance

Hoje a ideia é falar sobre o Sopa de Romã, livro lindo que li pela primeira vez há alguns anos. Obviamente essa introdução acima sobre o Amigo do Rei explica o motivo pelo qual esse livro tocou meu coração. Pois bem, se não me engano ele chegou em minha vida em 2006. Três anos depois da minha experiência do jantar persa e um ano depois de seu lançamento. Assim que o vi, nem li direito sobre o que o livro era. Vi o seu título e logo me lembrei daquele jantar. Depois, vi que era um romance, que tinha sido traduzido por Nina Horta e trazia algumas receitas. Sem pensar muito, simplesmente o comprei!

Quando cheguei em casa é que fui abri-lo e ver de fato do que se tratava. Eu me sentei no sofá, coloquei as pernas para cima e comecei a lê-lo. Gente, vou contar uma coisa para vocês: só larguei o livro quando o terminei. Devorei as 246 páginas em um fim de tarde, uma noite e parte de uma madrugada.

A história

Sopa de Romã é uma história linda que tem como cenário uma pequena cidade irlandesa chamada Ballinacroagh. Três irmãs, fugindo da revolução islâmica do Aiatolá Khomeini, de 1979, vão para a Gran Bretanha. Marjan, a mais velha, Bahar e Layla, as mais novas, tentaram a vida em Londres. No entanto, o passado voltou a atormentá-las ali e elas se abrigaram na afastada cidadezinha irlandesa. Em Ballinacroagh elas se estabeleceram no antigo Café Babilônia. Ali, tentaram aos poucos conquistar os habitantes da cidade com seus sabores e cheiros exóticos. Não foi nada fácil. Elas tiveram que lutar principalmente contra a xenofobia para ganhar os corações e estômagos da comunidade local.

Especiarias em um mercado no Irã

Esse foi o romance de estreia de Marsha. Ele é um best seller traduzido em mais de 15 línguas e publicado em 20 países. Nessa trajetória de fuga das três irmãs, vemos uma pontinha autobiográfica. É que a escritora, nascida em 1977, escapou do Irã com a sua família para a Argentina na época da revolução. A fuga em si, bem como as dores sentidas pelas mulheres que passaram a ser muito desvalorizadas em sua terra natal, são tratados de forma leve, sem muita profundidade na história. Por outro lado, a autora, que casou-se com um irlandês e passou a morar no país, resolveu explorar a questão do ser uma estranha em uma terra estranha.

Marsha Mehran – foto de divulgação

Provocando os sentidos

O livro tem uma narrativa deliciosa em todos os aspectos. Cada capítulo aguça a nossa curiosidade e os nossos sentidos não só em função da história, mas também por causa das receitas clássicas da culinária persa que são trazidas no início de cada um deles. Se por um lado viajamos longe nas histórias das três irmãs, por outro, para aqueles que amam gastronomia, é impossível não se ver imaginando os cheiros e sabores relatados na trama. Que bom que a autora nos presenteou com as receitas para que pudéssemos tentar reproduzir os cheiros e sabores daqueles pratos. A minha mente viajou até a lembrança mais clara disso que eu poderia ter: a comida de Nasrin.

Espero que se encantem com este livro assim como me encantei. A autora publicou ainda mais dois livros antes de morrer em 2014 aos 36 anos por motivos desconhecidos. No entanto, infelizmente ainda não os encontrei traduzidos para o português. O primeiro deles se chama Rosewater and Soda Bread (Água de rosas e pão de soda), publicado em 2008. O segundo é The Saturday Night School of Beauty (A Escola de Beleza de Sábado à Noite), publicado postumamente em 2014. Quem tiver facilidade para ler em inglês, certamente os títulos valem a pena. Gostei muito de ambos. De todo modo, Sopa de Romã está aqui para nos fazer mergulhar nessa cultura alimentar tão pouco explorada no Brasil, e ao mesmo tempo rica, saborosa e elegante.

Ficha técnica:

Título: Sopa de Romã
Titulo Original: Pomegranate Soup
Autor: Marsha Mehran / Tradução: Nina Horta
Editora: Jaboticaba
Número de Páginas: 246

Deliciem-se e até a próxima!

About Nicole Delucca Linhares

Uma jornalista obcecada pelo lado bom da vida que está sempre em busca de experiências românticas para dividir com o mundo. Apaixonada por comidinhas, pores-do-sol, plantas, livros, cinema, viagens e teatro. É também professora de italiano, cozinheira para todas as horas, filosofa de boteco e, por fim, uma mistura doida de Minas, Itália e Piauí!

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